Histórias de Moradores de Itu

Esta página em parceria com o Museu da Pessoa é dedicada a compartilhar histórias e depoimentos dos Moradores da Cidade de Itu.


História do Morador: Luiz Fernando Bolognesi
Local: São Paulo
Publicado em: 12/07/2004






Luiz Fernando Bolognesi

Sinopse

Fala da família e a origem em Itu.A infância em São Paulo. O time de futebol, o Ituano. O célebre almoço de domingo e situações típicas das famílias italianas.Sobre o Colégio Irmã Catarina e Colégio Santa Cruz e de professoras preferidas. As namoradas. Os reencontros depois de muitos anos.

Período da vida em que se achava uma pessoa triste, niilista. Fala de teatro.A faculdade de História e de Economia.Viagem para Europa. Conta sobre a meningite aos 20 anos e a esclerose múltipla. Começa a ter sintomas em Londres e depois na Itália. Conta sobre o tratamento. Conta sobre o trabalho dos Doutores da Alegria.

História
:
P - A gente queria começar perguntando seu nome completo, o local e a data do seu nascimento. R - Meu nome é Luiz Fernando Bolognesi, eu nasci em São Paulo em 8 de maio de 1968. P - Posso te chamar de Nando? R - Pode, por favor. P - Nando, o nome de seus pais, que origem eles têm? R - São dois caipiras. Meu pai veio de Itu, é Luiz Antonio Bolognesi. Nasceu em 1936 em Itu, e minha mãe de Marília. Nasceu em 1938 em Marília. Vieram pra São Paulo pra trabalhar, tudo mais e afinal acabaram se conhecendo aqui. Num sobrado em frente ao Castelões. Outro dia eu fui lá comer com eles e ele falou: "Ah Comecei a namorar sua mãe naquele sobrado." Em frente ao Castelões ali.(risos) P - E você é o primeiro filho? R - Não. Eu sou o mais novo. Tenho um irmão mais velho que eu. Dois anos mais velho que eu. Também Luiz.

Porque tudo... Família italiana. O avô era Luiz, meu pai é Luiz, eu sou Luiz, meu irmão é Luiz. Meu irmão é Luiz Roberto, eu sou Luiz Fernando e meu pai é Luiz Antonio. P - E seu avô? R - Meu avô era Luiz. Só Luiz. E quando a gente morava junto e ligavam em casa querendo falar com o Luiz, todo mundo corria. Qual Luiz que era? (risos) P - Todo mundo atendia. R - Teve uma época que eu e meu irmão fazíamos USP e PUC. "Ah. O Luiz que faz USP e PUC" Agora tem dois. Continua. (risos) P - Nando, conta um pouquinho da sua infância. De sua primeira casa. Do que você se lembra dela. R - A primeira casa que eu me lembro, era a minha casa em Itu. Eu mudei pra Itu em 1970. Eu passei de 1970 a 1974 em Itu. De 1968 a 1970, foi num apartamento no Cambuci, eu não lembro de nada. Não "existe" esse apartamento. Agora, essa casa em Itu, eu lembro bem, e eu lembro melhor ainda porque uns dois meses atrás eu fui lá. Eu fui na casa, quis rever aquela casa. Eu toquei no vizinho, que era dono da casa que alugava, e falei que eu tinha ido ver a casa. E a mulher lembrava de mim. Ela falou assim: " Nossa, você é filho do Luiz e da Dirce. Como você está grande."

E eu estava com a Berta. A Berta é uma pessoa que trabalha na casa de meus pais de antes do meu irmão mais velho nascer. É como se fosse minha avó. E lembrou da Berta. "Nossa Benedita." A abriram a casa pra mim, que hoje a casa virou um tipo de um museuzinho. Não é exatamente um museu, mas o cara é um artista plástico e está alugando pra uma exposição. E foi muito engraçado, porque quando eu entrei na casa, geralmente a gente tem aquela sensação de que quando você revê a casa de sua infância, a gente diz: "Nossa como é pequena" E não. A memória que eu tinha da casa era exatamente aquilo. Quando eu entrei na casa, falei: "Nossa que engraçado.

É exatamente essa a imagem que eu tinha da casa. Dos tamanhos das coisas, da torre que eu sempre subia no quintal. E o quintal estava fechado. "O pintor que está com a chave. Você volta à tarde?" E eu voltei. Voltei à tarde, o pintor abriu pra mim, eu desci, fui no quintal. E foi muito emocionante. Quando eu entrei naquele quintal falei:" Nossa, quanta coisa que eu não fiz.."

Eu tinha derrubado o muro do quintal, o muro com a vizinha, mas foi azar porque eu brincar de Tarzan, subi no varal, em vez de arrebentar o varal caiu o muro (risos). E caiu no meu irmão que estava embaixo brincando. E aí, eu fiquei sentado ali – tinha um degrauzinho no quintal – eu falei: " Nossa, cara, que barato. O mesmo lugar, esse mesmo chão." Não, porque a gente tem a chácara, tem uma chácara lá, que... Porque toda a família de meu pai é de Itu, então, quase todo final de semana... Agora não mais, mas até eu ter 16, 17 anos, todo final de semana a gente ia para Itu. Quando eu voltei pra São Paulo, todas as férias minhas de janeiro e fevereiro, eu passava em Itu, na casa da minha avó. Na casa da minha avó acontece isso. Quando eu entro lá eu falo: " Nossa, como o quintal... Na minha memória um quintal tão grande e agora vendo aqui é tão pequeno, bicho. Como é que eu jogava bola aqui com mais três primos. Mal cabe eu aqui." (risos) Agora é assim. Eu vou pra Itu uma vez por mês. Mas era uma coisa muito presente pra minha infância. Tanto é que fala de infância, eu lembro de Itu, porque mesmo quando eu vim pra São Paulo, todo final de semana eu ia pra Itu porque os meus amigos, os meus primos eram tudo de Itu.

As férias inteiras eu passava em Itu, e a memória mais clara de uma infância mais longínqua, eu tenho de Itu. Depois, aqui em São Paulo, eu mudei pra uma casa que era na rua Ilamônia e eu lembro muito que eu jogava futebol na porta da casa, que tinha um portão marrom. Eu jogava bola. Eu lembro das figuras. Do Paulinho, do Serginho, que eram os caras que jogavam bola comigo. Depois eu mudei pra um outro apartamento. Acho que tudo isso é infância. Aí lá pelos 12 anos, eu fui pra um apartamento na Rua dos Franceses, no Bixiga, que também minha memória sempre foi jogando futebol. Era um playground grande, com o chão igual a este aqui, emborrachado. Então minha mãe ficava louca porque gostava de catar no gol. Porque eu sou o irmão mais novo e eu descia só com meu irmão. E irmão mais novo sempre faz o pior.(risos) Então ele chutando e eu tinha que defender. Então, eu defendia, e meu irmão chutava. Então, cair nesse chão, com essa coisa de borracha, ficava tudo preto. Eu subia, e nas paredes da minha casa, era um inteira preta: " Você botou a mão preta..." E eu tenho essa memória. Depois, eu já vou pra um outro apartamento no Real Parque, e aí eu me vejo mais adolescente. Mudei pra lá quando eu tinha de 13 pra 14 anos. Eu acho que já era uma outra fase. Mas, eu acho gozado porque a minha esposa, a Élida... É gozado falar "minha esposa" parece tão formal. A Élida, ela não lembra nada da infância. P - Ela é de Itu também? R - Não. Ela é daqui de São Paulo, e ela falou: "Nossa, eu não lembro nada disso". Eu não lembro nada da minha infância. Ela vê fotos às vezes. Quando a gente vai na casa dos pais dela, e ai ela não tem... Eu digo: "Nossa, eu tenho muita lembrança da minha infância." P - Então vamos contar um pouco da sua infância, desse relacionamento nessa casa tão especial, que você foi visitar. Como eram as brincadeiras? Os relacionamentos da família? R - Eu lembro muito da minha escola, que era o Chapeuzinho Vermelho. E antes do Chapeuzinho Vermelho, teve o Pequeno Príncipe, que eu visitei também. No dia que eu fui na casa, eu fiz um "tour" porque era tudo na mesma rua, só que era mais pra cima. Eu passei no Jardim da Infância que era o Pequeno Príncipe, que não existe mais.

E o Chapeuzinho Vermelho virou Apae. Mas, o total, que eu tenho até uma foto que eu estou assim com a lancheira aqui do lado e os livros, na porta, no portãozinho. O portãozinho está lá "Olha que legal" Eu tenho algumas memórias tipo sensações. Tenho uma sensação de eu muito enjoado, que eu brinquei naquele gira gira e eu fiquei super enjoado. Lembro que eu chegando em casa, uma coisa muito ruim. Eu tenho essa sensação. Tenho sensação da lembrança de eu brincando com meu irmão na garagem da casa, que era um piso de cerâmica, que era gelado, ele fazia animaizinhos com Yakoult. Fazia leão, hominho com Yakoult e eu lembro de eu brincado disso com ele. Lembro de uma brincadeira minha que era assim: sempre passavam distribuindo nas casas, papéis das Lojas Cem, essas coisas. Eu achava que eu era muito subversivo, passando e recolhendo todos. Eu entrava em todas as casas, pulava os muros e recolhia todos e levava pra minha casa e recortava. (risos) Então, eram sempre coisas de super mercado. Eu recortava as televisões, os rádios... Depois eu não fazia nada com aquilo. Era só a brincadeira de passar nas casas roubando essas coisas. Lembro da cadela que tinha lá, que era a Suzi, que era um vira lata que minha mãe deu porque ela comia as roupas do varal. Estragava muitas roupas do varal. E em troca, já que tiraram a Suzi, deram um bicho mais tranqüilo, que era uma tartaruga. (risos). Fugiu. Eu lembro que a gente dava banana pra ela. Me lembro dando banana pra ela. Lembro do meu vizinho, que era uma figura muito legal, apesar de ser do exército. Ele era... Chamava Ari Barreta. Até hoje a gente ainda tem contato com ele. Ele mudou para o Rio de Janeiro e de vez em quando, quando a gente vai pro Rio, a gente liga pra ele, sai com ele. Um cara fantástico. Eu sempre lembro de uma brincadeira dele.

Até, quando eu encontrei ele recentemente, brinquei com ele. Ele sempre fazia assim: "Onde está a bola?" Ele era carioca. "Onde está a bola? Onde está a bola? (com sotaque) Não quero craque. E ficava tirando a bola de nós. Dois molequinhos, um de cinco, um de sete. Me lembro dessa cena. De ele ir buscar a bola. Lembro do dia que caiu o varal, da mulher dele, da Jandira, saindo: " Nossa. O que aconteceu?" Era o muro que dava pra casa do lado. Eu tenho umas lembranças assim episódicas. Eu lembro de um aniversário – não lembro se era meu ou de meu irmão - nessa casa lá de Itu, e eu muito envergonhado, porque estava todo mundo tirando sarro porque eu dormi no ombro de uma mulher no cinema. (risos) E quem tinha me levado era um cara muito legal que se separou de uma tia minha, era meu tio, que se chamava Roberto. Era um cara muito legal e ele que me levou. Só ele que me defendia. Dizia " E daí, que o Nando dormiu?" "Aah. Dormiu no colo da menina." Ficou todo mundo... P - E você tinha quantos anos? R - Eu saí de Itu em 1974. Devia ter uns cinco anos. Quatro anos. A memória que eu tenho que eu acho que é a mais distante no tempo, que eu nem sei, não tenho certeza se é memória, ou se me contaram. Eu tinha como memória, mas quando eu contei falaram: "Será que você não criou essa imagem sobre uma história que já contaram?" Que é a minha mãe caindo comigo. Que na hora que ela abre o portãozinho pra entrar, ela escorregou e ela caiu no chão. Eu disse que eu lembro disso, que depois o cotovelo dela ficou roxo e tal. E aí é que levantaram essa hiPôtese: "Será que você lembra. Mas isso logo que a gente mudou pra Itu. Você tinha uns dois anos e pouco". Isso meus pais que falavam "A gente já contou essa história tanto. Será que você lembra mesmo, ou de tanto a gente contar você incorporou e acha que lembra." Agora, todas essas coisas que eu falei, eu tenho as imagens. Tem a imagem também de eu ir indo no trilho do trem, jogar pedra no trem. Passava um trem atrás da nossa casa, umas três quadras pra baixo e eu ia com meus primos, a gente ficava atirando pedrinhas - não pedra grande, não paralelepípedo. Coisa de moleque. Atirava no trem, ninguém vinha reclamar, mas a gente atirava e saia correndo como se viesse alguém pegar.

Nunca ninguém, nem via lá. P - Atirava e corria. R - Corria. E uma lembrança muito gostosa que eu tenho, que outro dia também eu fui lá e falei: "Pô. Mudou o campo. Porque agora o Ituano é um time da primeira divisão, mas quando eu morava lá o estádio onde hoje é o estádio do Ituano era o estádio municipal, tinha o time dos veteranos que eram os meus tios que tinham 33, 35, 37... E eles jogavam todo sábado e meu pai apitava. Meu pai não jogava. Ele apitava. E todo sábado à tarde eu ia lá pro campo do Ituano assistir o jogo deles e o legal é que a gente assistia de dentro do campo. Ficava atrás do gol. No intervalo a gente jogava. E eu lembro da sensação de chutar a bola oficial. Era assim: "Nossa, bicho, como é pesada, como é dura. Como meu tio é bacana. Olha o chute que ele dá nessa bola." A gente jogava a nossa bola, mas de vez em quando... eu tinha uma sensação assim... Depois, logo que eu voltei pra São Paulo, todo sábado a gente ia pra Itu e eu ia ver os veteranos jogarem. E como eu tinha tipo uns 13, 14, eu ficava naquela coceira de entrar... E nunca rolou pra mim. (risos) Rolou pro meu irmão. O Gerson, acho que ele tinha uns 15, 16 e ele faltou e tinha 10. Então, " Dá a vez pra ele." Taca ele nos veteranos. E Travis era o máximo. E eu: "Já aconteceu com o meu irmão. Daqui a pouco vai acontecer comigo." Mas nunca rolou.

P - Nando, conta um pouquinho sobre seus pais. Como era o relacionamento da família. Você é descendente de italianos não? R - É. P - Tinha os célebres almoços de domingo? R - Tinha. P - Reunia a família inteira? R - A casa da minha avó era assim uma coisa muito presente na minha infância. A sala do almoço ali...toda a família... P - Ela era italiana? R - Minha avó, eu acho que ela era mais de descendência portuguesa. Era Aracy Gonçalves. Portuguesa. Meu avô que era... Por parte de mãe também. É Martini e Costa. Português com italiano. Mas toda a minha lembrança de vô e vó é por parte de meu pai, porque minha mãe perdeu os pais. Quando ela tinha 12, perdeu a mãe e 14 perdeu o pai. Não conheci. Por parte de meu pai, eu conheci a minha avó. Meu avô morreu em 54. O que eu estava falando mesmo? P - Você estava falando que os almoços eram na casa de sua avó. R - É dos almoços. Meu pai tem oito irmãos e ainda um adotivo. Então eles são em 10. Ia todo mundo pra lá, ia toda família, todos os primos. Era todo domingo. Era sagrado. E aí tinha o lugar onde hoje é a chácara que ficou pro meu pai, que era um lugar que era da família, porque o meu pai com mais outros oito irmãos, tinham uma olaria. E em cima da olaria eles fizeram um barracão, uma coisa assim, que era onde a gente se reunia nos domingos, sempre fazia almoço. Aí era o máximo.

Tenho na minha memória, a entrada da olaria, que é uma estrada de asfalto, mas a entrada é de terra e tem um barranco meio curvo. Sempre que eu penso - agora a gente fala chácara, mas quando eu era moleque era olaria - sempre que eu falo olaria, me vem aquela imagem. Falando em imagem, tem uma coisa muito engraçada, que sábado pra mim, tem uma cara. A palavra sábado e é dessa Rua do Patrocínio onde eu morei, até fui mostrar pra Élida no dia que eu fui ver minha casa. Que é o seguinte: tipo umas quatro casas pra baixo da minha casa, tinha um portão, que você abria pro carro, e o lugar onde você encaixava as travas do portão, era um negócio de concreto redondo, com dois furos. E pra mim sábado tem essa cara. Até hoje. Sempre que eu falo sábado, eu vejo essa entrada da casa e esse negócinho.

P - Por que? O nome da rua era sábado? R - Não. A rua chama Rua do Patrocínio. Eu não sei porque, mas ficou na minha memória – sábado junto com essa imagem, que é esse portão com esse negócio, que é dessa rua, dessa casa que eu fui visitar. E o sábado está lá ainda. Eu passei que isso aqui é a memória do sábado que eu tenho até hoje. Sempre que eu digo sábado, se associa essa imagem. Desse portão, desse negócinho aqui. E os almoços lá na casa da minha avó era assim: Família de italiano. Então, baixaria total. P - E acabava em pizza, não? R - Choradeira tinham sempre. E tem um tio meu, que é o mais novo, que ele toca "pente". Só quando ele bebe um pouquinho. Mas ele bebe sempre, então sempre está tocando pente. Então tem que tomar uns copos de cerveja e ele fala: "Eu vou tocar o "pente" pro pai descer." Porque quando meu avô morreu, o pai dele, era muito moleque.

Tinha uns seis ou sete anos.

Aí, a família toda falava: "Ih Julinho vai pegar o "pente". Aí ele pega o pente...E ele toca bem pra caramba o pente. Isso que eu acho incrível. Toca bem e fala: " Ih O pai vai descer." E conforme o tempo foi passando, morreu um outro irmão dele, do meu vô. Então a gente fala: "Ih Agora vai descer o pai e o João" (risos) E era aquela choradeira. Tia chora e fica chorando. E todo domingo rolava essas coisas. E briga. Virava e mexia tinha um irmão que não estava falando com outro. E depois, quando fazia as pazes, era aquela choradeira. Abraçava o irmão. Chorava. Era bem um clima de família feliniana. Tem personagens. Tipo, a tia que ficou solteirona, que os irmãos que tiram sarro dela falam que ela casou com Cristo, porque ela vive na igreja. Ficavam pejorativamente falando: "Laurita é beata." Então tem a tia beata, tem a outra que tem a pecha de mentirosa, tem outro que bebe e toca pente. Tinha vários personagens. (risos) P - Também, 10 irmãos. R - Esses almoços eram eventos muito legais. P - Todo domingo? R - Todo domingo. Isso foi perdendo com o tempo.

Cada núcleo foi ficando no seu. Porque aí foram tendo os filhos, os filhos foram tendo filhos. A maioria deles já tem netos. Então, no Natal reúne, mas ficou uma coisa muito mais distante. Cada um foi ficando no seu núcleo. Não é que a gente não vê mais. Todo mundo se vê, se fala, se sabe de todo mundo. Mas essa coisa de reunir todo domingo... O Natal também, que juntava todo mundo, isso meio que acabou. E dá saudades. P - A sua avó é viva ainda? R - Não. Minha avó morreu faz uns três ou quatro anos. Mas é assim, porque a memória que eu tenho de avó, não é essa memória padrão de avó, daquela figura toda carinhosa.

Porque a minha avó era muito amargurada. Desde que morreu meu avô em 54, que todos os filhos dizem que ela mudou completamente. Ela era uma figura... Ela era carinhosa, mas ela era uma pessoa muito amargurada, e quando a gente falava... Eu lembro que meus tios falavam assim: "Ah. Mamãe, quando a senhora fizer 80 anos..."

"Pelo amor de Deus, fazer 80 anos. Eu quero ir antes, eu quero ir logo. Eu quero ir embora. "Sempre esse papo de "Quero morrer." E era uma figura meio deprimida, uma coisa... Quando eu passava minhas férias lá, era legal, ela me recebia bem, porque meu pai era meio o queridinho dela. Todo a família tem um filho queridinho e era o meu pai. Então, era o filho do queridinho. Então, ela me tratava super bem, mas não era aquela avó de dar colo, de... Era difícil você ver minha avó dando colo pra alguém, fazendo cafuné em alguém. Não rolava muito isso. P - E ela é que era de origem portuguesa? R - Portuguesa. E é legal, que ela conheceu meu avô.. É uma história legal que meu bisavô veio da Itália e eles abriram uma mercearia, uma coisa assim, e meio que faliu, meu bisavô morreu de cirrose. Mas isso, na família dos italianos não se fala. Eu descobri isso, porque eu fui pegar...Estava tirando meu passaporte italiano.

Porque lá todos idolatram. "Não, porque papai..." Aquela coisa. E, bicho, era um carroceiro. E o bisavô que era cantor de ópera, ele realmente cantava ópera na Itália. Mas não é que cantava profissionalmente. Era um diletante. Veio pra cá, abriu essa mercearia, que faliu e tal. Meu avô era carroceiro e minha avó trabalhava no telégrafo. P/3- Já era brasileira? R - Já nasceu aqui. A minha avó trabalhava no telégrafo dos correios. Sempre passava o carroceiro e ela achava o carroceiro... Não sei como era. Sempre falou como carroceiro porque minha avó é que contava essa parte. Que ela via meu avô passando e meio que paqueravam. Minha avó era de Amparo e meu avô, acho que de Tietê. Aí eles... Enfim... P - E nesses almoços de domingo, como era a brincadeira da molecada? Devia ter muitos meninos. R - Sim, sim. Eu lembro... Uma das brincadeiras mais básicas era jogar futebol na rua que era toda de paralelepípedo...

Então eu sempre arrancava o tampo do meu dedão e minha mãe ficava brava porque ela queria que eu jogasse de tênis, eu lembro de um dia que eu voltei com o dedão... E minha mãe falou: "Não vou fazer o curativo." Minha mãe era... Sempre foi uma super mãe, super protetora. Então, "Nossa. Dirce, falou que não vai fazer curativo no Nando? O que aconteceu?" E aí ficou um clima assim... Meu pai falou: "Dirce, como..." E aí brigou com minha mãe: "Como, o menino está com o pé sangrando." Todo domingo eu jogava futebol e o gol era o portão da Light, e quando a bola caia lá, os pais ficavam preocupados, porque a gente pulava, e era da Light. Nunca aconteceu nada. O principal problema não era a Light, que os pais achavam perigoso. Era o vizinho do lado. E quando a bola caia dentro, o cara era muito bravo.

E ficava aquela coisa: "Quem vai pedir a bola de volta?" "Quem vai tocar a campainha pra pedir." Essa era uma brincadeira que sempre eu estava, e tinha uma outra que a gente fazia que era de "Duro ou Mole". Tinha um negócinho de concreto na parede do muro, que o pessoal usava pra sentar. A gente ficava em cima, e aí um puxa de cima, você cai e você tem que ficar paralisado do jeito que você caiu. Aí, uma pessoa passa, tentando te fazer rir, essas coisas. Eu lembro dessa brincadeira. Até hoje, quando eu olho, digo: "Nossa, eu subia nesse lugar?" Hoje eu fico em pé ela bate aqui em mim. P - Pra você era um baita muro. R - É. Tinha muitas gerações de primos, de idade. Tinha as primas um pouco mais velhas que eu, que não brincavam com a gente. Era outra turma. Meu irmão, coitado, ele ficou meio... Ele era muito mais velho pra minha turma, que nós éramos cinco primos inseparáveis, que era eu, mais dois homens e duas meninas, que eram todos da mesma idade. Tipo meses de diferença. Aí, com dois anos acima, que era o meu irmão, era ele sozinho.

Depois tinha gente já dois anos acima dele. Ele ficava meio... P - Ele nunca pertenceu à turma nenhuma. R - Não. E, gozado. Ele sempre ia no cine Marrocos, no cinema, ele ficava assistindo filme e ele voltava com um saquinho de bala Xita pra mim. Eu lembro disso. Eu jogando bola, e ele entrando e jogava o saquinho de bala Xita pra mim. Aquelas balas Xita amarelas, que às vezes eu dizia que não gostava muito. E é louco porque eu ficava jogando bola e ele sempre indo no cinema. Olha que legal. Ele agora virou cineasta. "Agora eu vou ver filme seu, cara. Que legal." Que ele é o roteirista do filme "Bicho de Sete Cabeças", que está passando agora. P - Ah. É seu irmão? R - Luis Bolognesi. Ele é o roteirista do filme. Casado com a Lais. Mas ele já fez outros. Falei :"Mas claro que você tem que ser. Desde aquela época, a gente ficava jogando bola, inclusive devia ter sete ou oito anos, e ele ia sozinho no cine Marrocos, todo domingo. Ia assistir filme. P - Nesses almoços, qual era a comida preferida, que você gostava e que você se lembra? R - Olha, eu lembro de macarrão com molho de tomate.

Mas, não é uma lembrança assim: " Hum, que delícia comer macarrão." Não tenho muito uma memória de paladar. "Ai que delícia." A memória é mais do clima da casa, do cheiro da casa.

Da parte onde a gente comia, que era um lugar mais frio, era cerâmica, então era fria. Do cuco que tinha, que saia e fazia "cuco, cuco"... e aquele badalo... A coisa do paladar da comida pra mim não é muito presente. Não é uma coisa especial. Mesmo porque não era minha avó que cozinhava. Acho que cada dia uma tia cozinhava. Eu lembro de uma coisa que o pessoal falava que era milagre, que era quando minha avó fazia bolinho de pingar. Porque ela nunca fazia nada. Ela era sempre meio deprimida, meio na dela.

De vez em quando ela fazia... P - O que é esse bolinho de pingar? R É um bolinho doce, que na verdade eles chamam de bolinho de chuva ou bolinho de pingar. De vez em quando, quando minha avó fazia, diziam: " Nossa, Aracy fez um bolinho de pingar" P - Você ficou em Itu até que idade? R - Eu saí de lá em 74. Tinha seis anos. Eu vim morar em São Paulo, mas como eu falei, minha referência é toda em Itu. Todo sábado a gente ia pra Itu, voltava no domingo. Todas as férias eu passava lá. Sempre lá. Aí claro, aos pouco e a coisa foi transferindo pra cá mesmo. Os meus grandes amigos eram os meus primos que eu sempre ia pra lá... P - Por que vocês vieram pra cá? R - Por causa do trabalho de meu pai. Meu pai foi pra Itu pra fazer, pra abrir essa olaria, que ele abriu com outros dois irmãos. E a olaria faliu. E aí pintou um trabalho aqui em São Paulo e meu pai ficou um ano ou dois, não sei, indo e voltando. Minha mãe contou que ele vinha na segunda pra São Paulo e ficava até sexta e voltava. A gente ficava só eu, meu irmão, minha mãe e a Berta. Aí depois ele começou a ir e voltar todo o dia, e quando a coisa aqui começou a engrenar, ele disse: "Não dá pra continuar assim." E aí a gente mudou pra cá, pra São Paulo.

Nós mudamos pra uma casa muito legal, que eu gostava de lá também. Eu lembro assim, que quando a gente veio pra São Paulo, os tios ficavam perguntando... Meu irmão queria ir e eu não. Queria ficar lá em Itu. Eu sempre falava que eu queria. Aí então eu ficava mais o xodó, porque todos são muito bairristas. "Itu" Tudo foi em Itu. Tudo é Itu. Então: "Ah. O Nando gosta mais de Itu.

Ele não quer ir pra São Paulo." Então tinha uma cunhada que dizia: " Beto é metido de querer ir pra São Paulo." Essas coisas assim. P - Você entrou na escola aqui em São Paulo? R - Não. Eu entrei lá. Eu fiz...Eu me alfabetizei um ano antes, e aí quando eu vim pra São Paulo, a tia Edith, que era a diretora da escola que eu fui, que era uma escola montessoriana na Aclimação, ela falou que achava judiação eu ir pro primeiro ano com seis anos. Que eu não ia me enturmar. Pra eu de novo fazer a alfabetização, pra me adaptar com o método montessoriano de ensino. Então quando eu vim pra São Paulo, eu fiz o Pré de novo. E eu tenho uma lembrança assim muito forte desse pré-primário aqui em São Paulo: Eu cheguei em São Paulo, e eu lembro que eu falava assim um pouco ituano. Eu chamava Luiz Ferrrrnando e meu irmão Luiz RRRRoberto. Os dois tem "r". Eu não conseguia não falar com sotaque. Eu sempre falei Luiz Fernando e Luiz Roberto (com sotaque). E logo que eu cheguei na escola – claro, eu cheguei e ainda não tinha muito amigo - eu lembro dessa cena muito claramente, na classe, que tinha uma vaquinha, que o corpo dela era divido em partes e tinha um prego em cada parte, e então você desmontava puxando pelo prego, e depois tinha que montar de novo.

E bicho, eu passava horas conversando com essa vaquinha, não falando, mas em pensamento. Então, eu tirava: "Ai, ai ai, você tirou minha patinha, Luiz Fernando." "Calma, já vou por." (risos) E eu lembro do barulho de uma obra que tinha. O barulho de obra, tac tac tac do martelo ou " Eh Zelão pega lá." Sabe coisa de obra assim? E eu conversando com essa vaquinha e apaixonado pela Fabiana.(risos) Que era uma loirinha super bonitinha, que eu ficava... P - Da sua turma? R - Da minha classe. Eu ficava desmontando a vaquinha, conversando com a vaquinha e só olhando pra Fabiana. E eu sempre acabei as coisas antes. Como eu já tinha sido alfabetizado em Itu, e lá era tudo por lição.

E estava acabando o primeiro semestre e eu já tinha feito do ano todo. Então, eu fiquei com a minha vaquinha muito bem (risos) porque eu já tinha acabado as coisas. É uma lembrança muito presente. Eu com essa vaquinha e olhando a Fabiana. E eu lembro que eu ficava morrendo de invelivres. Eles estão lá fora". Ouvia eles gritando: "Oh Zelão, joga o martelo". Aí eu ficava morrendo de inveja deles. Eu estudava à tarde e lembro que quando eu ficava doente, por algum motivo. Nunca se deixou faltar na escola. Meus pais eram bem rígidos com negócio de escola. Só faltava se estivesse doente. Eu lembro que, quando eu faltava, que eu ficava em casa, era a maior liberdade Era muito novo. Você conhecia como era sua casa à tarde, cara. Porque eu nunca estava. P - Como é que era? R - Era Calma. Era uma tranqüilidade. Tinha um cheiro bom de limpeza. Tudo muito tranqüilo. A casa arrumadinha. Eu lembro que eu ficava deitado no sofá. Eu me lembro que eu tive rubéola, mas quando eu tive rubéola eu não ficava deitado, porque eu só tive a manifestação, mas eu não tinha nada.

Não tinha febre, mas não podia ir na escola. Então, eu jogava bola, foi maravilhoso. Agora, às vezes que eu ficava doente, eu deitava no sofá e era ótimo porque minha mãe ia levar meu irmão na escola, e como eu estava doente ela me paparicava. Então na volta ela trazia muito mais envelopes de figurinhas do que normalmente ela me permitia comprar (risos). Podia comprar, sei lá. Um cruzeiro, que vinham cinco envelopes. Ela vinha com 20, sei lá. Porque ele está em casa, está doente... Então era uma delícia. E a Berta, a Berta me mimou sempre. Sempre me mimou. Enquanto minha mãe ia levar meu irmão eu ficava com a Berta, ela me mimando. Aí chegava minha mãe com os envelopes de figurinhas. E a casa ficava muito silenciosa, com cheiro gostoso. Escurecia, porque eles fechavam a cortina. Era outra casa. Era muito legal ficar em casa. Eu adorava. P - E depois dessa escola, onde você fez o pré, você continuou na mesma? R - Eu continuei nela até a sexta série. Eu adorava a escola. Era muito legal porque era uma escola pequena, era na Rua Júpiter. Chamava Irmã Catarina. Hoje ela virou um prédio.

Eu fui lá outro dia ver. Eu fui lá ver ela, eu cheguei e tinha um prédio cara. A hora que eu cheguei "Cara, cadê a Irmã Catarina?" aí eu falei: "Bom, mas pelo menos a tia Wanda." A tia Wanda era uma papelaria que tinha do lado onde eu comprava as figurinhas. Não tinha também a tia Wanda, mas tinha uma banca de jornal em frente à tia Wanda e estava lá na banca de jornal. Aí, eu fui lá: " Oi tia Wanda, eu estudei aqui. Foi naquela escola." Ela não lembrou de mim, mas lembrou da escola. Ali na Rua Júpiter. Então, na Rua Júpiter era o prédio de depois da primeira série. O pré-primário eu fiz na rua Urano, que era uma rua pra lá. Era um lugar muito grande, uma escola muito grande. Eu lembro que tinha um quadradão bem grande, que a gente jogava futebol. Eu tinha seis e meu irmão tinha oito. Era uma diferença muito grande, mas meu irmão deixava eu jogar bola com a turma dele. Isso era um status tremendo, porque eu já era grandinho. Sempre fui o maior da turma. Então eu podia jogar com a moçada de oito anos. E eles meio que me paparicavam. Era o caçula do Beto. E então, no horário do recreio, era o meu horário de rei: "Eu vou jogar bola com o pessoal da segunda série." (risos) Eu jogava futebol com o pessoal da segunda.

E era aceito, era escolhido. Não era um dos primeiros, mas não era o último. Não era o lanterninha. Então pra mim era um momento de... "Estou com tudo. Jogo bola com o povo da sexta série." P - Você ficou nessa escola até a sexta série e depois mudou pra qual? R - Eu mudei pro Santa Cruz. Foi assim: meu irmão estava na oitava série e lá não tinha colegial. Então estava fazendo cursinho pra entrar no Santa Cruz. Lá em casa só se falava em Santa Cruz: Panfleto do Santa Cruz, foto do Santa Cruz, vai visitar o Santa Cruz. Aí falei: " Ah Eu quero ir pro Santa Cruz também." Eu podia continuar lá na Irmã Catarina até a oitava série, mas eu fui visitar o Santa Cruz. Meu primo que estudava lá convidava a gente pra festa dos esportes que eu já tinha ido. Puta era um colégio enorme. Tem campos de futebol.

Só se falava em Santa Cruz, e eu quis sair. Porque eu adorava o Irmã Catarina. Era super enturmado. Era uma escola muito pequenininha. Cada classe tinha 10, 12 alunos. Então, você conhecia o moleque do primeiro ano ao grandalhão da oitava série. A gente conhecia todo mundo. Os professores conheciam. Era um lugar muito gostoso. Até hoje eu me arrependo. "Pô porque eu saí?" Eu saí de lá e fui pro Santa Cruz, foi outra coisa. Santa Cruz eram quatro classes de 45 alunos e aí eu cheguei como um reles desconhecido. Eu estava acostumado no Irmã Catarina...

P - Onde você era o rei. R - Ser o dodói. Olha, depois que eu passei da primeira pra segunda série o grande tchan, não era jogar com a turma. Era participar do treino. Ás sextas feiras, quando acabava a aula, às cinco e meia, o professor de Educação Física tirava uns 10 moleques pra treinar, porque a escola sempre participava de campeonatos de futebol de salão. E eu participava do treino. Então eu era do treino (risos) era artilheiro do time, era bom aluno, as professoras... Era meio o queridinho das professoras. Era um lugar que eu tinha todo... Eu estava muito bem situado lá. Queridinho das professoras, jogava no time da escola, era artilheiro do time da escola, gritavam o Magal, que o astro da época era o Magal (risos) Então, quando eu ia jogar bola, "... o Magal." Eu fui pro Santa Cruz, era ninguém. 160 crianças por série, tinha seus ídolos, tinha os melhores jogadores de futebol. Eu cheguei lá e falei: "Puta, entrei lascado." P - Quero voltar.

R - Eu só penso que quero voltar agora. Na época não. Porque eu já me enturmei meio rápido. Tipo no segundo mês eu já era representante de classe, e tal. Mas, o status que eu tinha no Irmã Catarina, isso nunca mais recuperei. P - Nessa primeira escola, qual era a professora preferida? R - A tia Águida. E a tia Mercedes. Eu adorava a tia Mercedes, porque ela me chamava de Lu. Eu achava, eu me sentia tão íntimo dela. Ninguém me chamava de Lu. Me chamavam de Luiz Fernando. A tia Águida eu adorava. Até hoje eu fico pensando assim: "Poxa, eu queria ligar pra tia Águida". Era irmã da tia Ângela, que era professora do meu irmão. E era a professora de classe, aquelas professoras que dão aula de tudo. Ela era super legal. A tia Mercedes foi na terceira e na quarta e a tia Águida foi na quinta e na sexta. Tia Mercedes era uma ruiva, de óculos, e sempre no final das aulas tinha duplas ou trios que tinham que varrer a classe. Eu adorava quando era o meu dia de ficar pra varrer a classe, porque a tia Mercedes ficava junto. E era nesse momento ela me chamava de Lu. "Lu, pega isso, pega aquilo."

Eu me sentia tão adulto, porque eu estava fazendo um trabalho junto com ela. E ela me tratava como um igual. "Lu, você puxa aquela cadeira ali?" Eu ia todo feliz. (risos) Eu adorava. Tanto é que quando você perguntou, a primeira que eu lembrei foi ela. E tinha uma outra que eu lembro, que era a tia Regina, que era de Francês, porque era muito bonita. Todos os meninos da escola ficavam assim... na aula da Tia Regina. Todos. P - Foi sua primeira paixão? R - Não. A primeira paixão foi a Fabiana. No pré-primário. P - Fabiana já... R - Não. Fabiana durou muitos anos. Imagina. P - Nossa. R - E era assim: teve uma época que começou a ter bailinhos pra quarta, quinta série. Aí, eu namorava e trocava de namorada. E meio que quase todas as meninas da classe queriam namorar comigo. Qual era a única que não queria? A Fabiana. P - Não queria? R - Não. Ela queria namorar o Marcelo, que era meu melhor amigo. Um puta cara legal também. Mas aí, imagina bicho... Aí minha paixão foi lá pra cima (risos)"A Fabiana não quer namorar comigo." Tinha aqueles cadernos, aqueles livros, "Que revista você gosta?" Pô, eu ia direto na página de "Quem você gosta?" (risos ) E a Fabiana, era o Marcelo. Isso era terrível. Lembro que eu ficava muito puto, porque todo mundo sabia e todo mundo tirava sarro, principalmente na minha casa: meu irmão, meus pais, tiravam sarro.

Uma coisa muito chata. Eu nunca falei nada, mas devia dar muita bandeira. P - E esse pessoal, que foram amigos de infância, você mantém até hoje? R - Não. É gozado que os meus pais mantém, porque como a gente ficava muito junto, um na casa do outro, os pais ficaram amigos. Então meus pais até... A sócia da minha mãe é a mãe de um dos caras da minha época; todo mês eles se reúnem numa pizzaria. Mas nós não. A gente foi cada um pra um canto. Há uns três anos atrás teve um almoço... um jantar... Não, foi a festa do Irmã Catarina. Foi a festa dos 50 anos do Irmã Catarina e aí eu encontrei um monte de gente. Foi super gostoso.

Mas, eu fico sabendo o que eles estão fazendo, por causa dos meus pais. P - E a Fabiana? Como é que está? R - Não sei. A Fabiana e a Fabíola, que era a irmã dela, e que também era bonita. A Fabíola. Nesse dia, a Fabiana não foi. Nesse dia que teve o reencontro. Estava todo curioso pra ver a Fabiana. Que será que a Fabiana está fazendo? Foi a Fabíola que era a irmã dela, mas eu não lembro o que ela estava fazendo. Agora que você perguntou da Fabiana, eu lembrei que eu vi uma menina que..., é gozado, o tempo vai passando e sempre que você está na classe, tem aquelas pessoas que são as mais... que tem mais respeito, que tem mais fama, que tem mais prestígio, e aquelas que são...

E tinha uma menina que era totalmente ah... e quando a gente viu ela assim, a gente falou:" Nossa cara, como é que ela ficou uma pessoa interessante." Como a gente é bobo quando a gente é moleque. (risos) A Sandra, ela tinha... "Olha que mulher interessante que ela ficou." P - E ela era desprezada? R - Totalmente. Não só por mim, mas por todos.

Ela era da turma dos Nerds que hja do pessoal da obra. Eu dizia: "Pô. Eles estão omem é Nerd, mulher não tem. Mas ela era dos Nerds. Tem sempre dessas coisas. P - Agora vamos lembrar do início do Santa Cruz. Que você já estava também numa fase de pré-adolescência. Do que você se recorda dessa época? R - São recordações dolorosas. A recordação disso de eu chegar e falar: " Pô, aqui eu não sou mais o bam bam bam. Quando a gente fazia o intervalo e ia jogar bola, eu queria me impor, como eu me impunha lá, e a primeira coisa que foi boa foi que: "Puxa, o cara chuta forte." Ganhei um certo respeito, mas tinha três caras que jogavam muito melhor do que eu. Indiscutivelmente. Aí então, eu fiquei um pouco abalado. Não tinha assim... Na hora de escolher. Não era eu que escolhiam. Tudo bem que eu não era um dos primeiros a ser escolhido, já tinha outros dois. Mas eu ganhei um pouco no lance de chutar forte. Já elegi umas oito pra ficar apaixonado.

Eu era craque nisso, em olhar pra menina e já ficar completamente apaixonado. Eu lembro da Viviana. Essa eu vejo até hoje. O pessoal do Santa Cruz eu vejo mais. P/3 – Você chegou a namorar com alguma delas? R - Não. Namorei uma, que outro dia eu vi numa festa, e disse: Nossa, que engraçado." Porque eu achei ela tão diferente do mundo em que eu vivo. Ela é médica e achei que ela estava meio Barbie. Falei: "Nossa, mas que gozado." Foi até a minha primeira namorada, tirando aquelas do Irmã Catarina, que foi final do primeiro colegial, começo do segundo. Teve uma festa agora, há uns meses atrás, todo mundo do Santa Cruz de novo. Aí, foi legal, eu encontrei ela e disse: "Nossa, como a gente tomou caminhos diferentes." O pessoal está tão diferente, bem base mesmo. Esquisito.

P - Você ficou no Santa Cruz até o colegial? R - Até o terceiro colegial. Eu lembro que eu era muito bom em Português, porque a minha escola era muito boa em Português. Matemática era péssimo. Muito tempo depois eu fiquei sabendo que eu entrei no Santa Cruz por artimanha, porque na verdade, quando eu fiz o teste, na sétima série, não fui aprovado. Eu tinha tirado tipo a segunda melhor nota em Português, mas tipo a pior em Matemática. E eu não tinha entrado. Mas aí meu pai era amigo do Secretário da Educação e o cara ligou pra lá e falou: "Olha, o menino..." e me botaram lá dentro. Mas, em Português eu era muito bom. Então eu fui ganhando prestígio por aí. Era bom aluno. A professora de Português gostava de mim e eu sempre fui muito falante e aí já fiquei representante de classe. Eu ganhei um espaçozinho. Porque o ambiente não era o mesmo do Irmã Catarina. Por isso que eu disse que foi um momento sofrido pra mim. Eu até não sei muito se na época eu tinha – com certeza acho que não – não tinha essa consciência. Só depois, olhando pra trás que eu vejo: "Nossa, que barra que foi." E foi nessa época também que eu descobri que tinha nariz grande e é uma coisa que eu lembro assim...

Um primo meu, mais novo, falou assim: "O Nando tem nariz de tucano." Cara, bicho, isso foi uma alfinetada. Alfinetada não. Uma lançada. (risos) "Como nariz de tucano?" (risos) Eu lembro, que eu fiquei assim... Foi nessa época..Eu estava muito bô, cara. Muito bô. Um atrás do outro? Perdi... P - Você tinha o apelido de Magal,não? R - O apelido de Magal era ótimo. Eu adorava. P - Depois foi "Narigudo", "Nariz de Tucano", alguma coisa assim, ou não? R - Não, não. Não pegou esse apelido. Foi um dia - eu lembro da cena - eu estava assistindo televisão na casa da minha avó, e eu saí pra ir no banheiro. Quando eu voltei, ele estava comentando com a minha tia. "Ah Porque o Nando tem nariz de tucano" E eu: " Hamm?". E aí eu lembro de me olhar no espelho fazendo aquelas coisas pra olhar. ( risos) E eu nunca tinha tido consciência. Foi nessa época, eu devia ter uns 13 anos. Isso pra mim foi assim: "Sou feio." Aí já não era só o nariz.

E aí: "Puta cara, eu sou feio." A aí tinha um lance com o meu irmão mais velho também, que era uma coisa bem... Meio sádica do meu irmão.Tanto que ele sempre foi o galã da turma dele. Então eu lembro dessa fase, eu com uns 13, ele com uns 15 e a gente na frente do espelho, se penteando e ele arrumando espinha e tal. "Puta, Nando, como você é feio cara. Puta está gordo, seboso." E eu: "Meu nariz de tucano, falou que eu sou gordo e seboso. Puta. Não tenho mais o prestígio que eu tinha." Porque lá ainda tinha. Podia falar que eu tinha nariz de tucano, era gordo e seboso, mas todo mundo queria namorar comigo. Menos a Fabiana, mas o resto todas querem. No Santa Cruz não. Isso mudou. P - E aí? Você ficou meio triste? R –Não. Não fiquei meio triste. Fiquei um cara completamente nihilista, completamente descrente de todo mundo, da vida. Nada vale a pena (risos). O mundo.... Eu lembro de um dia, quando eu estava no colegial, que um professor meu falou que se fazia queima de arroz pra regular estoque.

E eu: "Cara, a Humanidade não tem salvação." Eu entrei numa fase de total nihilismo, a humanidade não presta, nós somos a escória da natureza. Queimam arroz. Tem fome, o mundo passa fome e os caras queimam arroz pra regular preço. Não tem jeito. A Humanidade é um lixo. As poesias que eu gostava era Augusto dos Anjos. Aquela: " Escarra nessa boca que te beija" Eu juntei mais dois amigos que eram assim também e então a gente formou um grupinho. R - É. Tipo no intervalo... O gozado era o seguinte: tinha esse grupo, mas a gente não era... A gente não vivia ao largo. A gente era personagem central na escola. Eu era do grêmio, eu jogava futebol no time da escola, O Demian era o melhor aluno da classe. A gente não era... Porque, às vezes, fala isso pensa numa coisa já... Não era. A gente estava na onda. Mas era completa... Eu lembro de muitos recreios que eu ia pra capela.

Tinha uma capelinha lá no Santa Cruz, e eu ia pra capela: "O cara. Só se fala bobagem. Só falam merda lá embaixo. Só ficam desfilando roupinha, grife, viviam criticando, que era um puta bando de alienados, um puta bando de babacas." Eu lembro de muitos recreios eu na capela. Alguns com o Demian, mas muitos, sozinho. P/3 – Você ia rezar? R - Não. Não. Eu achava chato ficar lá em baixo. Só falavam bobagem. Tipo: "Eh Nando, está na cabeça." Que saco cara. (risos) As menininhas gostozinhas, todas de Fiorucci, um mundo de babacas. Eu achava aquilo bacaca. Então, eu saia, ia lá pra capela e ficava lá sentado. Eu lembro. Eu curtia o silêncio que tinha lá na capela. Eu tenho como marco pra essa passagem dentro da capela do Santa Cruz como marco, porque eu sempre fui um cara muito expansivo, representante de classe, pra esse lado nihilista, descrente. "Porra, a Humanidade é uma caca." P - E tudo começou com o nariz de tucano? R - Você vê? Com mudança de escola e com o nariz de tucano.(risos). Isso tudo eu estabeleci depois, olhando pra trás. É claro que não era claro pra mim. Eu fui sacando, fui vendo. Medo de análise por causa do meu nariz de tucano. (risos) Fui identificando essas passagens. Porque eu sempre tinha na minha casa, o papel do alegre da casa. "O Nando, nossa. É uma alegria. Sempre divertindo a gente. Super alegre, carrega a mamãe no colo. Chega lá e..." E isso não bate muito com o adolescente, que era um adolescente.. É claro que a vida... Tinha um poema que era o meu lema, que era do Vinícius de Moraes e que dizia assim: " É claro que a vida é bela e a alegria é a única que ainda exige emoção. Mas acontece que eu sou triste." R - Isso. "Em ti bendigo o amor.....mas acontece que eu sou triste." O triste sou eu. Eu sei de tudo isso, mas acontece que eu sou triste. Fazer o que, cara? E isso aí ficou o meu bordão. P - E depois disso, como você foi crescendo mais do que o nariz (risos) teve um equilíbrio aí. Como é que essa fase de tristeza, essa fase de pré-adolescência, começou a passar? R - Eu acho que ela está passando até agora. Eu estou me recuperando disso até hoje. Eu acho. Eu comecei a sacar isso, acho que de uns cinco seis anos pra cá, e olhando minha vida, a atitude externa mudou. Quando eu me formei, quando eu resolvi fazer teatro, mas tinha um íntimo que eu identifico com esse cara nihilista, com esse cara descrente, inseguro, assim Nerd, e muito desse porte de Nerd, estou achando que é uma defesa. Isso eu sinto que até hoje é uma coisa que eu estou transformando. Eu sinto que estou num ciclo, num momento de passagem, mas não me sinto acabado. Quando eu olho, falo assim: "Ah na época da minha adolescência eu era assim." Eu estou numa, que está transformando. P - Você acabou o colegial. Como é que você se dirigiu pra área de Economia e História. O que te influenciou pra isso? R - Foi a aula do Pena. Eu lembro "O que eu vou fazer, bicho? Vou estudar o que?" Não tinha muito... Eu lembro de um curso de um professor de História muito legal, de História do Brasil, de República Velha, que ele estava dando Política do Encilhamento, coisa do café. Eu lembro que eu estava com o Demian que era meu grande amigo, e a gente estava na época de decidir o que ia fazer. Estava no primeiro semestre do terceiro colegial. Falei: "Porra Demian. Fazer Economia, cara. Vê como é legal esse curso que o cara está dando." Então, eu resolvi fazer Economia. E eu gostava muito de História, também por causa desse cara. Aí resolvi fazer os dois. Fazer Economia e História. Como eu não tinha que trabalhar... - "Não. Pra você estudar, papai banca tudo." Tá bom. Vou estudar. P - Como é que foi essa época de universidade?

R - Não foi legal não. Na Economia... Não é que não foi legal. Pensando do ponto de vista da Universidade, não foi legal, porque na Economia eu entrei, eu não gostava de ninguém, não me enturmei com ninguém, achava todos uns babacas. Meu amigo era o Demian, que era esse cara que veio do Santa Cruz, e tinha três ou quatro da turma, que eu gostava. O resto eu achava babaca, achava chato. Achava os papos pentelhos, os projetos de vida chato. Todo mundo fazendo estágio, pra ser diretor de empresa. Achava tudo isso um saco. Eu atravessava a rua e ficava na FAU, porque sempre tinha happy hour e eu sempre ficava no happy hour da FAU. Tinha muitos amigos do Santa Cruz que estavam na FAU, tanto é que eu ia pra estudar e ia pra FAU. E na História, as pessoas eram legais, mas o curso eu achava muito ruim. Eu achava... Eu fiquei muito decepcionado, quando eu entrei na faculdade.

Porque tem toda aquela coisa... Quando eu entrei, falei: "É isso? Fiquei meio... P/3 – Fez História aonde? R - História eu fiz na PUC. Eu fazia de manhã a Economia e à tarde História. Mas era legal porque... P/3 – Você estudava Economia porque? R - Eu queria fazer... Eu tinha claro que eu ia seguir a carreira acadêmica, não ia trabalhar em empresa, e eu queria ter um projeto pra mudar o Brasil. (risos) Tanto é que a minha monografia – quando a gente estava acabando o curso, tinha que fazer uma monografia – foi um diagnóstico da situação brasileira. Toda uma preocupação com o estar atuando na realidade. Enfim, de você ser atuante nesse sentido. Eu me imaginava como um cara que ia ter uma atuação política, como economista. Seguindo uma carreira acadêmica de dar aulas e tal, mas com tempo pra criar um espaço pra... Eu entrei na faculdade foi pensando nisso. Aí conforme o curso foi se desenrolando, eu fui cada vez mais me afastando disso e meio que me decepcionando com o curso. Era tudo muito técnico, muito de cálculo. Eu gostava dos cursos de Teoria do Valor. Eu lembro que no curso de Teoria do Valor, eu tinha aula com o Gianetti – não com o velho, com um cara moço – e, bicho, eu ficava... Dessas aulas eu gostava. Adoro polêmica. E eu acho ele muito reacionário. Só sabe fazer Economia. E um dia – eu tinha feito um curso de Teoria do Valor do Marx – que era eu o Demian e a gente devorava tudo. Estudava pra cacete.

Então foi um curso legal. Eu manjava relativamente bem. E aí o cara sempre... Ele era muito reacionário e eu lembro que ele falava coisas: "Não isso não é teoria do Marx que eu estou falando." E aí a gente ficava discutindo com ele. Esses momentos eu gostava. Mas era sempre apontando que o cara estava errado. "Você está sendo reacionário, conservador e está agindo de má fé porque está passando informação errada. (risos) Puta, e o Demian não falava. Eu falava "Levanta." Então eu falava: "Que saco de lugar é esse. Que os caras querem ficar aqui só ouvindo o que o cara fala. A hora que você vai debater vai criticar os caras ficam achando que eu sou um chato." Eu lembro que um dia foi o Delfim Neto falar lá. E eu e o Demian ficamos os heróis esse dia. O Delfim Neto foi lá, lotou a sala, todo mundo assim... Aí, o Demiam pediu a palavra e falou que achava que o Delfim Neto não tinha autoridade nenhuma pra estar lá falando, tanta gente ouvindo ele, que ele era um cara que participou do movimento militar, que assinou o AI5. Começou a falar um monte de coisas. E aí o presidente do grêmio já levantou pra pedir desculpas pro Delfim Neto. O Delfim Neto deu uma resposta super reacionária, tipo: " Quem é você? Eu sou formado nisso, naquilo e naquele outro. E você, quem é?" Então, eu tinha esse tipo de decepção com a Economia. Um lugar reacionário, um lugar chato. Um lugar em que todo mundo quer ser diretor de empresa, ficar milionário e ter o carro do ano. Que saco. Então eu tinha um pouco de... Por isso eu disse que não foi legal. Eu fiquei decepcionado com isso. Na História as pessoas eram legais, eu curtia o povo de lá, mas eu falava assim: "Pô esses cursos são tão reba...Não tem prova. "Eu sempre era o pentelho da turma. Na Economia porque era o de esquerda, o pentelho de esquerda que lê e que sabe, que discute com o professor. Então: "Ai que saco. O cara vai polemizar." E eu sempre adorei polêmica. E na História, porque era assim... Os caras falavam assim... Tinha muitos debates pra não ter prova. Eu dizia: "Claro que tem que ter prova. Tem que ter prova sim. "Porque ficava tudo naquela de fazer trabalho em grupo, aquela coisa, você faz os trabalhos meio nas coxas, entrega. Eu achava que o curso não era sério. Eu fiquei um pouco decepcionado pelo nível. Eu entrei numa época em que estava meio que desmontando a História da PUC. Estava todo mundo indo pra USP. Quando pegava aquele curso, "Ah. O semestre passado quem deu foi o Nicolau, mas agora ele foi pra USP." Eu sempre pegava o momento em que estavam saindo muitos professores. P - Em que época foi isso? R - Eu entrei em 86. Economia eu acabei em 89. Eu fiz em quatro anos. Mas a História eu tranquei... Porque eu não fazia todos os cursos. Eu trancava. Vamos supor, em vez de fazer 20 créditos eu fazia 15. E eu acabei só quando eu voltei da Europa, 91. Acabei em 93, 94. Mas eu voltei e quis acabar. P - Você acabou os dois? R - Acabei os dois. P - E depois disso, como é que você escolheu esses cursos lá na PUC.

R - Era uma coisa assim. Na época eu achei que ia escolher de um jeito, agora eu acho outro, mas eu vou contar as duas. Na época – eu passei um ano na Europa. Quando eu acabei de me formar, meu pai falou: "Olha, eu vou te dar uma passagem de ida e volta pra Europa, e você fica lá quanto tempo você quiser. A passagem é aberta pra um ano." Aí botei na minha cabeça que ia ficar um ano. E meu pai tinha me dado dinheiro pra eu ficar uns três meses. Daria pra ficar uns três meses. E aí, eu... P - Mas você estava a fim de fazer essa viagem? Como surgiu a idéia de fazer? R - É. Eu me formei, e eu não tinha essa vontade, como eu te falei... Eu não fiz nenhum estágio, eu não tinha vontade. Eu acabei e falei: "O que eu vou fazer, bicho. Não quero muito trabalhar com Economia. Não é isso que eu quero." Meu pai falou: "Você acabou de se formar agora. Normal. Vai viajar, e quando você voltar, você vê o que você vai fazer." E então, eu fui com essa proposta.

Eu acabei em 90, eu estava com 21 anos. Aí, eu fui pra lá. Fui pra Londres e fui trabalhar, porque a grana que eu tinha era pra três meses e eu pensei: "Se eu começar a trabalhar agora, eu junto pra ficar mais tempo." Fiquei em Londres janeiro, fevereiro e março, que era inverno. Puta. Todo dia frio, chovendo... Eu arrumei emprego numa loja de terceiro mundíssimo. Eu não tinha ainda passaporte italiano, então eu era um cara que fazia tudo. Fazia faxina na loja, ia nos bancos, fazia entrega, fazia tudo. Eu estava sozinho. Fui viajar sozinho. Primeira vez que eu saí de casa, que eu fiquei longe de meus pais. Estava sozinho. Então, eu estava sempre muito reflexivo e com sentimento de estranhamento com relação a tudo. Porque é outra língua, outro país. Então, eu estava muito assim... Escrevendo diário, e tal. Eu lembro que eu andava no metrô de Londres e falava: "Cara, as pessoas não se olham. Acho que eles abrem o jornal pra não olhar pra cara do outro." Porque todo mundo lá assina o jornal. Não se conversa. "Puta, mas que dia a dia mais bobo. Você vai pro trabalho, trabalha, volta pra casa...

Pra que? O que está rolando? Aí eu lembro que eu escrevi no diário assim: "A civilização... Porque eu lembrei do seguinte: quando eu fui pro Nordeste, - eu estava no segundo ou terceiro colegial, e meu pai me deu dinheiro pra passar 20 dias e a gente conseguiu ficar 45. Fui eu e mais quatro amigos. Então, a gente economizava pra caramba. E aí a gente entrou numa onda de economizar. E não precisava mais, aquilo dava. Só que a gente entrou tanto naquele movimento de economia que você continuou. Aí eu fiz essa associação com a Civilização. Queria uma civilização com o sentido do trabalho, de você sair, pra lá, lá pra lá la... você está construindo um mundo bacana, sua vida é legal. Só que em nome da civilização, as pessoas fazem isso, bicho. Acordam de manhã, ficam no metrô com o jornal na cara, fazem um trabalho chato que não gostam, depois saem à noite pra ir bem longe.

Lá à noite era muito deprimido, uma coisa... Não era uma alegria... Eu não sentia uma alegria bacana. Sentia uma alegria pesada, meio "vomitando." Aí, eu falava assim: "Não, a civilização está podre - A gente fica fazendo um trabalho..." Do mesmo jeito que eu perdi o pé na época de "Eu quero economizar." Tudo em nome do progresso. Progresso pra que? O que é essas nações todas... Fiquei muito questionando isso tudo e aí eu percebo que o único jeito de você não ficar preso a isso, é você ser ou marginal ou você ser artista. E o legal é o seguinte: o marginal ou o artista, na verdade, eles além de tudo, eles ainda aproveitam as benesses das fundações, porque lógico que é legal você abrir a torneira e sair água. Eu tinha ido pra Paraíba, que meu irmão tinha morado lá, que não tinha água. "Pô. É do caramba."

Só que não fica escravo dela. Eu uso das benesses, mas só que não sou escravizado. Na verdade, eu lembro de eu escrevi no diário, que são os grandes marajás da civilização: os marginais e os artistas. Então eu vou ser artista. Marginal não vou ser mais. Não dá mais, (risos). Pra efetuar, eu comecei a procurar. Cantar não porque eu canto mal. "Ah. Vou ser ator." Escrevi: "Vou ser ator sim." No meu diário: Voltando para o Brasil vou fazer IAD, porque na Economia, aqui era a FAU e ali era o IAD. Eu via aquelas pessoas interessantes, que entravam lá . "Nossa, esse cara é muito louco" Então quando eu decidi que eu queria se ator escrevi assim: "Quando eu voltar por Brasil eu vou fazer IAD e vou ser ator." Aí, tipo 15 dias depois, - quando eu saí do Brasil, eu tinha pedido um estágio na Fiat. Saiu o estágio na Fiat em Torino. E eu achei ótimo porque o Brasil ia ficar em Torino. Era a Copa de 90."Puta, vou ver a Copa...(risos) Vou ver o jogo do Brasil, vou fazer estágio na Fiat...

Não era tanto pelo estágio. Era pela grana. Ia ganhar dois mil dólares por mês, no estágio. Pensei: " Aqui, sendo faxineiro, sendo um cara que faz tudo eu ganhava 50 dólares por dia (25 paus) e eu achava 50 dólares muito pouco. Vou ganhar muito mais e meu projeto pra ficar em Torino vai ser bom. E aí, eu peguei o trem e fui pra Paris encontrar um daqueles três amigos meus que ficaram, do colegial, que tinham ficado em Paris. Aí a gente passou uma semana bebendo, enchendo a cara, e tudo o mais. Aí, eu peguei o trem pra Torino e eu estava lendo a Mandraga do Machiavel. No meu lugar do trem, tinha um cara que era italiano e que falou: "Nossa, você está lendo teatro? Você gosta de teatro?

Eu sou ator. E vai começar a ter um curso de teatro agora lá em Torino." Eu falei: "Nossa, 15 dias atrás botei um ponto que eu vou ser ator. Quando eu voltasse pro Brasil ia fazer o IAD. Não preciso esperar; posso começar a fazer agora." Aí, esse cara me arrumou um apartamento com um amigo dele que ia casar, mas não sabia se ia dar certo e não queria se desfazer do apartamento. Queria alugar pra gente de confiança. "Pô, acabou de me conhecer no trem e já me julga de confiança (risos) Isso é ótimo." Era esse ator. Aí ele me arrumou esse apartamento pra eu alugar e o curso de teatro. Aí eu comecei a fazer o curso de teatro lá. E era assim: de dia, eu fazia o estágio na Fiat, que eu achava um tédio e o meu "elam" era: "Ah bicho, não vejo a hora de chegar a noite e ir pro curso de teatro." P/3 – Era toda noite?

R - Era toda noite, de segunda a sexta à noite. Foi uns 40 dias. Eu adorei. Adorei, nunca tinha feito nada de teatro. No Santa Cruz tinha o grupo de teatro, mas eu nunca participei. No Santa Cruz era o futebol. Eu queria ser jogador de futebol. Tinha um monte de gente que fazia teatro lá e eu achava que era chato. Meu negócio era futebol. A aí lá, quando eu comecei a fazer esse curso, eu adorei. Por isso eu falei que tinha duas versões. Essa foi uma delas. P - Só pra completar. Esse estágio na Fiat, era em que setor? R - Eu fiz na área de marketing. O estágio que eu fiz foi na área de marketing. Não foi um estágio que me acrescentou muito. Eu fui mais porque eu não estava com essa proposta. Se eu tivesse com essa proposta, com certeza poderia ter aproveitado. Mas eu ia... Era gostoso, porque eu falava italiano, treinava bastante o meu italiano, tinha uns caras muito seguros.

Estava na época da Copa do Mundo. Mas, o estágio assim, não me acrescentou nada. Eu tinha consciência que estava fazendo pra ganhar os dois mil dólares e pra poder ficar mais tempo na Europa. P - Agora você conta a segunda versão. R - Depois, olhando pra trás, eu disse: "Esse papo de estar tomando decisões absolutamente passional... que eu falei... Sempre, quando eu era moleque, sempre quando a escola fazia excursão, eu sempre apresentava alguma coisa. Em casa eu sempre fazia imitações. Eu sempre tive essa vontade de fazer isso. Eu lembro que nesses debates que eu tinha com o Demian, que era esse meu amigo que era meio cara metade, eu lembro de um dia – acho que eu estava no segundo ano da faculdade – que ele tinha ido no meu aniversário e tinha me dado vários livros e tinha feito uma dedicatória em várias páginas do livro, dizendo assim: " Bicho. A vida é uma merda, nós estamos ferrados..." Eu lembro que, daí um mês ou dois que foi o aniversário dele eu fiz uma performance no aniversário dele pra falar: "Pêra aí, cara. Como tudo é um saco? No mínimo tomar cerveja com salame e não é bom? Tem coisa bacana.

Pêra aí." Ele foi afundando mais nessa e já estava meio..." Opa, cara. Não é tudo tão assim. "E aí eu lembro que nesse dia que eu disse que tinha coisas legais, eu falei: " Porque você não muda. Não vai procurar fazer outra coisa." Abri um caderno "Curso de teatro. Vai tentar um curso de teatro, por exemplo." Falando pra ele, mas também falando pra mim, por isso que eu falei que durante muito tempo eu achei que minha escolha tinha sido essa, uma coisa racional, que eu estava lá. Mais ou menos. Tudo bem. Esse foi o ponto de virada. Teve um dia que eu escrevi isso, mas já tinha uma coisa, tinha uma vontade latente, que eu ainda não tinha sacado, não tinha formalizado. Depois, revisitando as minhas coisas, disse: "Não. Pô. Mesmo no dia que eu falei pro Demian fazer um curso de teatro, eu estava falando pra mim." Eu estava dando alternativa pra mim. Estava falando pra ele, mas o cara era a minha cara metade, espera aí... P - Vocês são amigos até hoje?

R - Pois é. Essa é uma grande perda que eu tive. O Demian foi uma pessoa que desapareceu. Não desapareceu fisicamente. Desapareceu porque ele tomou outro rumo. Ele sempre teve essa característica. Sempre foi meio... Ele sempre era um cara muito legal, um cara com idéias muito arejadas, um cara que... O sonho dele era ter um jornal comunista. Eu lembro que ele era muito chato, porque, tipo assim, a gente cabulava a aula da FEA... Um dia a gente cabulou pra ir na bienal lá no Ibirapuera, A Bienal do Livro. Aí, deu umas quatro da tarde: "Bologna, eu tenho que ir." "Por que Demian? A gente não combinou que hoje a gente ia romper todos os nossos compromissos?" "Pois é, mas tem reunião do partido. Tem reunião do partido e eu não posso deixar de ir." E ele era um cara todo disciplinado com a causa revolucionária.

Então, tudo bem, eu posso até não concordar, mas era uma figura que eu admirava. E bicho, ele virou um executivo da telefonia. Casou com uma menina muito chata e ficou um cara que, aos poucos a gente foi se separando, separando e hoje... esse outro amigo, que era um dos três, que é o Rogério, ele fala: " Bom, o Demian..." Foi mesmo. E a tia do Demian, que sempre foi a tia do Demian, hoje é minha colega de trabalho, porque ela é atriz. Eu estou fazendo uma peça, que eu estou ensaiando com ela, A Brici Oca. Eu falo assim: Gozado não Bri, eu freqüentei tanto a sua casa – porque a casa dela era vizinha da casado Demian – e você sempre foi a tia do Demian. Hoje eu sou muito mais teu amigo do que do Demian. Não vejo mais Demian." E fiquei amigo da tia dele. Ele sumiu. Eu vejo muito de vez em quando. Um dia, marquei um almoço com ele, porque eu estava produzindo o espetáculo da Élida, que era um monólogo. Eu disse: " Pô, vou falar com o Demian. O cara está na Telefônica.

Deve ter jeito." E foi muito estranho. Falei:" Nossa, foi tão esquisito meu encontro com Demian. Ele está tão formal. Está tão duro. "Ele me cumprimentou assim..." Oi Bologna, tudo bem?" Falei assim: "Nossa, que esquisito. Como é que a gente tomou rumos tão diferentes. Agora é uma aproximação inviável. Agora o outro, o Rogério, a gente se vê muito. Jogamos botão. P - Nando, você falou que quando você acabou de se formar, seu pai te deu uma grana pra você ir pra Europa. Como é que era o relacionamento? Como você descreveria seu pai, sua mãe? Essa coisa de família de ter proporcionado pra você conhecer outra parte do mundo? R - Ter me proporcionado conhecer essa outra parte do mundo foi fantástico. Foi um momento divisor de águas na minha vida, essa viagem. Ela em si foi com certeza, um dos marcos da minha vida. Foi uma coisa muito legal. Eles sempre foram pais muito presentes, muito carinhosos. Agora tem todo o lado do excesso disso. Sempre foram pais muito super pais, uma coisa meio que sufoca. Isso eu percebo hoje, que eu fico meio na defensiva com eles. Eu fico mais retraído com eles, do que eu gostaria. Gostaria de ser mais carinhoso, mas expansivo, mas eu mesmo identifico que eu não ser, é um pouco de defesa minha, porque eles ocupam muito espaço. Então, eu me retiro um pouco, assim como defesa. Isso é uma coisa que com o tempo eu estou conseguindo transformar.

Até teve um dia, que foi muito legal. No finalzinho do ano passado, em dezembro, que meu pai – meu pai sempre assumiu o personagem do pai.Isso foi uma coisa que eu e meu irmão sempre lastimamos. Meu pai não abre a idéia do "papai" A gente já cresceu. Não tem mais aquela de "papai". Aí, teve um dia que ele me ligou e falou: "Papai está indo pra Itu. Você não quer ir junto? E eu: "Nossa, papai me chamou pra conversar." Aí, eu fui pra Itu e foi super legal. A gente passou um dia que... Foi agora, foi em dezembro desse ano. A gente conversou, e pela primeira vez ele falou de dificuldades. Porque ele sempre passou a idéia do super pai, do cara que fala "Papai faz, papai arranja, papai não sei o que lá. Papai não esquece, ele não lembra." Sempre passou a idéia do infalível, o que era uma coisa muito opressora. E nesse dia, eu falei: "Nossa cara... Pela primeira vez..." E foi legal, porque partiu do meu pai, foi ele que me convidou pra ir, e ele falou um monte de coisas.

Contou coisas dele, contou dificuldades. "Nossa, meu pai falando em dificuldades?" Foi um momento muito bacana. Acho que foi uma semana antes da noite de Natal. Na noite de Natal eu falei: "Pô pai, foi muito legal o que você me disse." "Ah Você achou?" E já com os olhos meio marejando. Falei: "Foi muito legal." Falou: "Puxa filho, porque pra mim, foi o dia mais feliz da minha vida." Falei " Nossa, que legal." Então foi um momento de aproximação. Porque eu tenho essa dificuldade, embora eu esteja muito presente, a gente se fala sempre. Por essa proposta dele não conseguir se desvencilhar da figura do pai. E aí, eu quero contar, quero bater um papo como amigo, e não tenho muito espaço. E a minha mãe, ela sempre adotou uma postura da que bota panos quentes. Quando eu era moleque eu tinha medo do meu pai. Meu pai era sempre muito bravo. Minha mãe, puta, minha mãe...Eu apanhava dela todo dia. Um tapa na bunda, todo dia, porque eu era muito moleque. Meu pai nunca me bateu, não é que não precisava. Era uma olhada assim...

E a minha mãe usava isso, com certeza sem ter consciência disso, mas ela reforçava, porque ela falava: "Se você não parar, quando seu pai chegar eu conto pra ele." "Então eu paro." Sempre aprendi isso. Então, na minha infância, meu pai sempre foi uma figura opressiva, uma figura de medo. "Tenho medo, cara. Só olha, sem precisar fazer nada." E era uma coisa que ele adotava, que era muito louco, que ao mesmo tempo que tinha isso, ele podia dar prêmios absurdos. Essa história dos envelopes de figurinhas, eu nunca esqueço de um dia em Itu, que ele foi com a gente na banca e comprou uma quantidade pra encher o álbum. Ele comprou 200. Então, do mesmo jeito que ele podia chegar e dar uma puta ferrada, e ficar assim, ele podia chegar e te trazer um pacote de figurinhas pra você.

Então, criou uma figura muito poderosa, que poderia te dar prêmios absurdos ou podia te... Então foi um processo – está sendo até hoje – de conseguir me aproximar do homem Luiz Antonio. Além de pai tem outras coisas. Essa foi uma dificuldade. E minha mãe, sempre adotou um pouco a postura da que bota pano quente. Quando meu pai ficava muito puto, ficava muito bravo – uma coisa que meu pai fazia, que hoje eu digo:" Nossa, não é a toa, bicho, que... – Ela falava assim pra mim: " Não faça papai perder a paciência. Pelo amor de Deus, não faça papai perder a paciência." Então, bicho, que fantasia é essa que eu tive, que se meu pai perder a paciência, o que vai acontecer? Eu cresci por toda minha infância, com essa ameaça. P - Ele nunca perdeu a paciência. Você descobriu o que tinha atrás dessa ameaça? R - Não, Nunca. Porque eu nunca corri dentro.

Sempre que falava: "Por favor, para" , eu... Meu irmão que correu dentro... , meu pai mudou pra: "Papai vai ter um ataque do coração." Sempre que ele falava isso, eu: " Não. Pelo amor de Deus, não, não perca." Eu lembro que quando eu estava na adolescência, meu irmão tinha uns 14, 15, não lembro exatamente o que rolou...risos) P - Acabou perdendo a paciência. R - Eu lembro que meu irmão... Eu lembro que uma vez teve uma discussão, que meu pai ficou com esse papo de "Não faça." E meu irmão continuou. E aí quando ele continuou, minha mãe já saiu do quarto desesperada, chorando. E eu "Puta merda, o que vai acontecer? Ele vai perder a paciência." Aí, bicho, ele ficou no safa assim, com a mão no peito, que estava passando mal. E meu irmão continuou. E eu pensando: "É hoje. Papai vai morrer do coração." Minha mãe também. E não aconteceu nada. (risos) Ele continuou passando mal. "Não vou... mas vou passar mal," O fato é que tem toda essa história na família. Meu avô morreu de enfarte, o irmão mais velho morreu de enfarte e todos piram que vão ter enfarte. Todos têm essa coisa. P - Então todo mundo tem enfarte na sua casa?

R - Então ele usou isso. Na verdade, quando ele precisava... Então, como a gente ficou adolescente, isso foi mudando. Essa coisa do "Papai vai explodir." Foi mudando mas, ainda era uma figura opressiva. Pela carga toda que eu tinha da minha infância, desse cara que... Porra, se seu pai perde a paciência, você não sabe o que pode acontecer. Paralelo a isso, a gente teve toda uma vida saudável, de ir no jogo de futebol junto, de sentar carinhoso, de ser um pai sempre presente. Mas, uma coisa que eu noto, que ficou da relação, é que foi muito... A parte de iniciativa, foi sempre muito podada. Porque sempre: "Papai faz. Papai faz. Papai compra." Isso quando você perguntou como é que está hoje? Eu sinto que estou num processo até hoje, porque eu vou identificando essas coisas. Eu vou sacando, pensando em determinadas situações, porque eu fui tão passivo nesses primeiros anos. Sacando algumas coisas que eu percebo que até hoje, evidentemente até hoje (eu não sou tão velho) eu estou trabalhando com conteúdos que tenham a ver com essa fase da vida. P - Você falou que você terminou Economia, História, foi pra Artes. E daí, como é que foi esse processo? R - Quando entrei na IAD, bicho, foi o ano mais feio da minha vida. P - Voltando. Você fez os 40 dias de curso, terminou o estágio... R - Fiz os 40 dias, terminei lá e aí acabei o estágio lá na Fiat, assisti a Copa do Mundo, acabei o curso de teatro e não fiz mais nada de... P - De importante?

R - De coisa importantíssima. Porque era, puta, era um sonho meu, assistir Copa do Mundo. Aí eu segui minha viagem, fui pra Firense fazer um curso de italiano, mas não fiz mais nada de teatro lá. Aí, quando eu voltei pro Brasil, por causa do foco, eu não tinha sacado que era por causa do foco. Disse: Bicho, não para de aparecer. Porque o teatro era minha vida. Quando eu voltei - tinha trancado a PUC. E eu nunca vi tanto curso de teatro na minha vida. Falei assim: "O destino está querendo que eu faça teatro." Ele simplesmente está lá, e agora que eu estou percebendo." E aí, eu não sabia, eu fui fazer Emílio Fontana.

Eu lembro que no primeiro dia achei estranho. No segundo, terceiro já não fui. Aí eu comentei com a Brita, a professora, que era a tia do Demian que era a pessoa mais próxima que eu conheci que lida com teatro, ela era crítica. Aí, eu falei pra Brita que eu queria ser ator. Ela riu, achou engraçado. Falou: "Você quer ser ator? Eu estou fazendo a iluminação de uma peça, e eu vou ter que sair porque eu vou fazer um outro espetáculo. Você não quer ir lá fazer? Porque é um grupo. Eu não sou iluminadora, mas estou fazendo porque é um grupo." Aí eu fui fazer a iluminação dessa peça. Adorei o ambiente, as pessoas. "Ah Isso que eu quero. Não é Economia, não é História. Nada disso. É isso aqui que eu quero."E aí lá é que me falaram... Ela falou... contei do Emílio Fontana, e ela falou: "Não Bologna pelo amor de Deus. Você vai fazer a IAD que é a melhor coisa que tem. Aí é que ela me falou mais formalmente da IAD que eu conhecia assim de ver, quando eu estava na FEA. E aí, fazendo a luz desse espetáculo, eu e a menina que operava o som, a gente se preparou pra ver o diretor do espetáculo deu uma ... ele via as nossas senhas, dava uns toques, um cara super legal. Daí a gente prestou e entramos. Lá na IAD. Aí quando eu entrei na IAD, o meu primeiro ano na IAD era um sonho. Eu não acreditava. Eu amava aquilo lá. Quando teve as férias de dezembro eu disse: "Droga. Tem férias, caramba. Não vejo a hora que voltem as aulas." Porque eu chegava lá, puta, eu tenho aula de dança, de mímica, de improviso. Puta, foi o melhor assim...

Depois, o segundo, o terceiro ano, também foi legal. Adorei o curso na IAD. Mas a descoberta, o impacto da descoberta foi no primeiro ano. Eu lembro que eu era assim... Puta, eu era muito feliz de estar indo pra IAD, ficava muito contente, satisfeito. "Puta, é isso que eu quero fazer, cara. Muito bom. Eu fico das seis e meia às onze e meia lá e adoro." Quando acaba, eu continuava lá. Sábado e domingo a gente ia lá ensaiar. Eu não saia de lá, e quando tinha férias dizia: "Droga que tem férias." Era super legal. Adorava. P - E a sua família numa boa, quando você decidiu fazer teatro? R - Então. Quando eu falei que ia fazer teatro, minha mãe: "Ah. Claro, que legal." Meu pai achou que era mais uma "viagem" minha. "Tudo bem. Mas você vai continuar fazendo o curso de História?" "Vou continuar. Eu faço IAD à noite e acabo a História de manhã." E estava dando aula. Estava fazendo História à tarde, dando aula de manhã, que aí eu já estava dando aula de História antes de acabar o curso. E fazia IAD à noite. Tudo bem. Mas eu senti que... "Não vai ser... Não vai fazer." Eu nunca tinha feito nada. Nem sei se eles achavam que eu ia entrar.

Eu me lembro que teve esse papo: "Nando, você tem que estar preparado, para se por acaso você não entrar, você voltar, porque você sabe que é uma coisa difícil, muita gente procura..." Tudo o que é formação está bom." Tinha um pouco essa noção. "Está estudando, vai ampliar currículo, vai ser bom." Em nenhum momento eles obstaculizaram, mas também não foi uma coisa de...

Porque na nossa família não tem nada disso. Ninguém na família é ator, atriz, nem nada disso. Não tem ninguém nessa área. Mas eu senti que eles falaram: "Legal, vai ampliar a formação dele. Bacana" P - E esses teus amigos da nova faculdade? Tem até hoje? R - Na IAD? P - Da IAD. R - A minha turma de hoje é o pessoal da IAD. Não todos, claro, porque a turma eram 20, mas as pessoas mais próximas agora, foi o povo que fez comigo o IAD. P - Você se formou quando? R - Eu me formei em 97 ou 98, porque eu tranquei um período. P - E daí já começou a atuar? R - Então. Quando eu estava no terceiro semestre, estava no segundo ano, um professor meu que eu adorava, que era o Celso Frateschi me convidou pra fazer um espetáculo. Eu falei: "Puta merda. Estou no segundo ano e já vou fazer um espetáculo tradicional com o Celso Frateschi" Direção do Celso e do Elias. Uma delícia. E foi metade da minha... Metade não, mas fomos em seis da minha classe que ele chamou. Ele tinha dado um curso pra gente, e aí chamou seis pra fazer o espetáculo com ele. E era um espetáculo que ele tinha montado na oficina que ele tinha dado pro terceiro ano, que eu tinha assistido e tinha achado maravilhoso.

Chamava-se "Efigênia e Aulis." E aí ele quis fazer uma montagem tradicional, e não fez com aquele elenco, fez com ele e a mulher dele que era a Edith e chamou nós. Então a gente se sentiu super prestigiados, pois montou com os caras do outro ano, não quis fazer, vai fazer com a gente E aí eu fui fazer essa peça que foi muito legal, embora tenha sido muito doloroso o processo todo. Lá que eu conheci a Élida. Muita gente... Porque era assim: tinha um coro de cinco meninas e quatro saíram. E como saíram quatro, entrou uma que foi a Élida. Foi lá que eu conheci ela. Foi quando eu saí pra fazer... P - Que peça que foi? R - Chamada "Aulis" que era baseada em "Efigênia e Aulis" Que ficou no Porão do Centro Cultural e depois foi pro Teatro de Arena, lá no Tuca. E até hoje, foi o melhor trabalho profissional que eu já fiz, com certeza. Eu adorava aquele espetáculo. Maravilhoso.

Foi a primeira experiência como profissional e como amador. Eu nunca tinha feito nada. E foi uma experiência muito bacana. P - E aí você já começou a morar com a Élida? R - Não. Não. Na verdade, a Elida foi morar comigo quando eu morava com meus pais ainda. Mas não foi uma decisão. Foi uma coisa do acaso assim, que a gente não se desgrudava e ela começou a dormir em casa, dormir em casa, dormir em casa, dormir em casa. Ela morava longe pra caramba. Eu levava ela pra trocar de roupa. Pra trocar a mala. Começou a trazer mala, e voltar pra casa. Aí trazia mala de uma em uma semana. Começou a trazer de 15 dias e começou a fazer de mês em mês.

Tanto é que a gente tirou a minha cama de solteiro e botou uma cama de casal. Porque no começo, tudo bem. Dormiam os dois na cama de solteiro. Depois teve uma segunda fase, que começava dormir na de solteiro e depois já ia pro chão. (risos) E aí você vê. A terceira fase foi botar a cama de casal até que a gente mudou e foi pro nosso apartamento. P - E seus pais nessa situação? Numa boa? Aceitaram bem? R - Aceitaram legal sim.

Eu lembro que quando a gente falou que ia casar, meu pai e todo mundo falou: "Ela está grávida?" Porque já estava com dois meses namorando. Quando eu cheguei no Jardim Botânico falei: "Nossa cara, foi aqui Elida e nós decidimos casar." Eu estava namorando dois meses nesse esquema de vai troca a mala e volta. E a gente foi passear no Jardim Botânico e falei: " Você reparou que a gente não se desgruda, cara. Vamos casar?" "Vamos." Aí a gente chegou em casa e contou pro meu pai: "A gente vai casar." Ele falou: "Está grávida?" Porque dois meses. Mas aí a gente falou que não e eles sempre acharam... Que era legal, gostaram. Porque eles sempre foram super protetores. Então eu acho que pra eles era uma coisa normal. "Poxa, o moleque está com 25 anos.

Acho que é normal. Casar." P - E como é que você chegou... Agora você é ator dos Doutores da Alegria? R - É. P - Como é que você chegou até eles? R - Como eu conheci os Doutores, eu já não me lembro. Qual foi a minha primeira informação dos Doutores da Alegria eu não lembro. P - Você atuou antes também em outras coisas? P/1 - Bom Nando, vamos continuar com a nossa trajetória. Você estava contando pra gente da sua primeira peça. Depois disso, o que você continuou fazendo. R - Eu ia começar a falar como eu virei palhaço. (risos) Na verdade eu acho que eu assumi... P - Tudo isso pra virar palhaço.

R - Tudo isso pra virar palhaço. Todos caminhos... Foi no IAD. Eu fui fazer... Estava já no último ano, que no último ano são só oficinas. E a Kito foi dar uma oficina de Clow e, puta, foi a mesma intensidade de quando eu entrei no IAD. "É isso que eu quero, bicho. É isso que eu quero fazer." E foi um pouco de encontrar... Sabe quando você fica assim: "Pra que será que eu tenho talento? Que será que eu tenho que fazer? Será que eu sou apto já pra isso?" E quando eu comecei a fazer o curso de Clow, falei: " É isso bicho. Claro." Aí começa a juntar fichinha, lembrar de coisas de sua vida. Eu sempre fui muito tirador de sarro, sempre. E as pessoas... Eu lembro que sempre tinha esse papo: "Ah. Bologna é um cara engraçado." E as vezes, eu estou falando sério, não estou fazendo piada. E as pessoas falam que é engraçado. Então, eu sempre tive um pouco essa veia de ser bem humorado, de ser tirador de sarro. E quando eu comecei a fazer o curso de Clow, eu adorei. Eu adorei. Eu sempre sou muito crítico. Deu pra perceber, como eu estou contando a minha história.

Então, é um lugar de liberdade. "Aqui pode." Eu sou um cara muito rígido comigo mesmo. Uma das coisas que eu procuro estar trabalhando no momento é a questão da rigidez. E eu saquei isso. "Pô bicho, o trabalho do Clow é o lugar onde vale tudo. Lá se pode. Pode ser ridículo. Pode fazer as coisas erradas. Aliás é bom que faça as coisas erradas, é bom que seja ridículo. P - Como é esse curso? Como é que foi? Quanto tempo durou? R - O curso que eu fiz com a Kito na IAD, foi um curso de quatro meses. Mas eu gostei tanto, que eu saí e fiquei atrás dela no Novadança. Fiz vários cursos com ela, fiz curso com o Felipe Bournier. O curso que a Kito deu na IAD, tinha toda uma parte física que era de contato e improvisação com a Titã Lemos que foi maravilhoso. Foi um semestre absurdo de bom. E aí tinha um trabalho da aproximação com a máscara, que era sempre um trabalho de vocês estar se revelando através da máscara. "O fato de se esconder atrás da máscara." Na verdade, quando se bota a máscara do palhaço, você não está se escondendo. Você está absolutamente se despindo por inteiro, porque você está justamente podendo mostrar as suas falhas, o que você é errado, o que você faz mal pra caramba.

Aí vira bom. É ótimo. Uma varinha de condão. Tudo o que é muito ruim fica fantástico. Quanto pior for, melhor vai ser. Portanto pro Clow o melhor lugar pra estar é estar na merda. E eu gostei muito do trabalho. Tanto do processo todo, do trabalho de corpo, quanto da linguagem. Eu lembro que, numa dessas reuniões de avaliação, eu não formulei. Escapou. "É isso que eu quero. Daí que me dei conta. "Será que é bom ser ... Acho que é. É isso que eu quero fazer. Essa linguagem que eu quero seguir." Tanto é que quando acabou o curso, o espetáculo que agente montou foi um espetáculo de improvisação.

Foi muito legal. Toda noite, de terça a domingo fazíamos espetáculo que você não sabia o que ia ser. Chegávamos... Éramos 25 atores, todos como Clow, e a gente improvisava. Uma hora, uma hora e meia, duas, dependendo como estava. E tinha um cara tocando guitarra que era o Renato Consorte, que hora ele corria atrás da gente, ora a gente corria atrás dele. Não era uma coisa... Foi um espetáculo maravilhoso de se fazer. E aí quando acabou, eu falei: " É isso que eu quero fazer. Quero me aprofundar nessa linguagem." Aí eu fui fazer com a Kito na Novadança, fiz cursos com o Felipe Bournier. P/3 – Na França? R - Não não. O Felipe Bournier veio pra cá. Fiz curso de dois meses que ele deu aqui. Deu um workshop só no Novadança porque o Felipe Bournier é meio mestre da Kito. A Kito aprendeu clow com o Bounier, então ela trouxe ele pra cá pro Novadança. Ele veio duas vezes. Eu fiz uma vez e adorei. Achei o máximo. Gostei muito. A Kito é que ficou minha mestra porque toda a minha iniciação e muito tempo eu fiz curso com ela na Novadança. E aí eu comecei a fazer espetáculo de clow com ela. Fiz esse de improviso e entrei na A Banda, que era um espetáculo que eu tinha visto, e depois precisou de uma substituição e eu entrei. Eu ia falar alguma coisa... Ah. Então, eu ia falar que o primeiro contato com os Doutores era o contato de negação, tanto que tinha um pouco uma coisa meio boba, que era uma briga de escolas, de linhas de clow. Porque tem muitas linhas.

E tinha muito daquela coisa meio intransigente, intolerante dizendo: "Não, o que não é da minha linha, não é Clow." Tinha uma coisa assim. Então, a primeira referência que eu tive dos Doutores da Alegria era assim: "Aquilo que se tem lá não é clow." Mas eu não conhecia. Era só dessa briga de intolerância das escolas de clow. P - Explica um pouquinho mais essa linguagem, essa postura "clow". O que significa exatamente isso? R - Nesse trabalho que eu fiz com a Kito e com Felipe Bounier, era muito de uma busca de um estado interior que você podia estar conseguindo com a máscara ou até sem a máscara. Mas num primeiro momento era com a máscara. É basicamente um estado interior. A busca de um estado interior. E que a princípio não está está preocupado em... não está privilegiando artimanhas, artifícios, construções elaboradas. É você. Você é que é o show. Você dando um estado, você se expondo, você não só no seu ridículo mostrando as bobagens que você faz, que é o que rola. O que se falava das outras linhas, dos Doutores por exemplo? Usam muitas artimanhas, cara. Não dá você, não é você que está lá. Você tem que estar usando traquitanas, tem que ficar usando...

O foco sai um pouco dessa coisa de você estar sempre se revelando, e o show é esse, não pra uma viagem. Todo mundo show, todo mundo. E falava assim: Os Doutores não. Uma coisa que você tem que usar traquitana, então era uma coisa de dizer assim: " Isso não é clow. Isso não é o clow." Tinha uma coisa meio purista, meio assim... Que não partia da Kito não. Era das pessoas que faziam o trabalho. Fica aquela disputa de "Ah. Vai ver o Midnight clow e façam isso." Desculpa, isso não é clow. São comediantes, mas isso não é clow. Ótimos comediantes muitos deles, mas isso não é clow. Saia com esse papo. Esse foi o primeiro contato que eu tive. Mas aí, me encantava a idéia do trabalho no hospital. Acho também um pouco pela minha história que eu não contei ainda, mas vou contar, me encantava um pouco a história de trabalhar no hospital. E aí eu lembro que eu e o César, que também está nos Doutores, e fazia A Banda junto, um dia indo lá pra Peruíbe fazer uma representação, a gente foi na Van conversando: "Ah. Vai ter peça nos Doutores..." E foi bem uma atitude de coragem, tipo "Vamos fazer" Porque é uma coisa tão execrada sabe, "Não isso não é clow, e tal" tipo " Eu vou confessar pra você que eu quero fazer." " Eu também." "Então vamos?" "Vamos." Foi uma coisa assim: vamos fazer.

Aí a gente foi fazer o teste, o César entrou e eu não. Mas aí eu fiquei sendo municiado de informações pelo César. Já tive um contato primeiro quando eu fui fazer o teste. Conheci as pessoas. Muitas delas eu já conhecia, não do trabalho dos Doutores, mas conhecia pelo teatro, coisa assim. Conheci o Wellington, mas foi uma primeira aproximação. E aí comecei a ser mais abastecido de informações pelo César, que estava lá. Como eu fiz o teste e não entrei, estava interessado e perguntava sempre pra ele como é o trabalho, me conta aí. E ele contando as coisas e ele achou: "Pô, como era bobagem da gente, aquela visão de que isso não é clow. Puta, é um monte de coisas que acrescenta pra caramba pra gente. No nosso trabalho de palhaço, e tal." E aí eu fui cada vez mais amadurecendo essa idéia do que eu queria fazer, e até comentei com o Wellington nesse segundo teste, que eu achei que foi bom que eu entrei nesse aqui. Não é uma coisa de ser Poliano, que se fala. Não é Poliano. É que não estava muito maduro pra mim essa coisa... Não estava muito bem resolvida essa coisa intolerante, "Não é clow" Eu topei fazer o que eles faziam. Eu queria entrar. Não é que eu não entrei porque eu não quis.

Eu quis e não consegui. Eu não estava inteiramente aberto. Eu estava ainda... P - Não era hora ainda. R - Eu ainda estava um pouco com essa coisa: "Isso não é clow." E com esses três anos entre um teste e outro, isso foi se modificando, foi amadurecendo. E dentro dessa coisa que eu te falei de um exercício meu que tem sido agora o de combater a rigidez e tal, isso entrou. Entrou nessa linha. De ver que é um trabalho diferente apenas. Tem coisas muito legais que podem... Isso não faz com que se homogenize. Todo mundo lá tenha a mesma linha. Não. Não é. Tem vários palhaços de linhas diferentes. Você vai no Midinight um dia e você vê coisas muito diferentes. E eu fui sacando que não. Tem um monte de coisas que servem, que interessam, que é artístico, que é legal. E acho interessante que o Wellington saca isso. Porque o dia que ele foi conversar comigo sobre o Midinight, ele falou: "O seu número tem que ser um pouco mais escranchado. Você não vai estar sendo leviano." Quer dizer, ele saca que eu tenho esse preconceito.

Porque ele falou: "Você não vai estar sendo leviano, você está muito preocupado. Mas está sendo uma coisa que está, que foi se desenvolvendo nesses três anos que eu não consegui entrar até o outro teste que eu entrei, e aí, quando eu fui pro outro teste, eu estava muito mais convicto que me interessava, era o que eu queria, tanto do ponto de vista artístico de desenvolvimento do meu trabalho de palhaço, como do ponto de vista pessoal, na minha vontade de fazer esse trabalho no hospital. De estar levando alegria. Inventava lá no site: "O Objetivo dos Doutores é levar alegria para crianças hospitalizadas." "Eu quero fazer isso." Eu fiquei mais alinhado com a idéia da coisa, e superei esse preconceito: "Ah Isso não é clow, isso não serve, isso é sujo." P - Nesses três anos, nesse período que trabalhos você ficou fazendo? O que é sua vida artística? R - Estou tentando lembrar. Bom, eu fiquei uns tempos fazendo trabalho de clow com A Banda, que A Banda era uma coisa que não acabava nunca. Ficou cinco anos. A Banda sempre teve. Então, eu sempre estava fazendo clow no palco com A Banda, e fazendo os cursos com a Kito. Até o curso com Felipe Bournier, acho que foi depois do primeiro teste dos Doutores que eu fiz. Fazendo esses treinamentos lá na Novadança com a Tica, de contato e improvisação. De espetáculo eu fiz a Cândida Erêndira de Isaias Almada, que foi ele que deu oficina pra mim lá no IAD. Foi lá que eu conheci ele. Ah Eu não tinha me formado ainda na IAD. Foi em 98. Então eu acabei a IAD em 98. Foi o ano que eu fiz o Tartufo, também. No final de 98 pra 99. E eu fazia um personagem que era um clow.

Não era um clow de máscara, mas o espírito dele era um clow. Eu adorava fazer, era super legal. Eu achava que era um personagem legal. Que era bem feito. E era um clow, embora não tivesse formalmente na postura de clow, era um clow. Eu fiz o Tartufo, a Cândida Erêndira. Fiz um curta. E fiz coisinhas assim soltas. Mas eu já estava direcionando a minha formação pra idéia do palhaço. Fazendo esses cursos com a Kito, esses cursos de contactulização, improvisação com a Tita, que era pra estar afinando meu instrumento, mas pensando sempre no meu trabalho como palhaço. Eu lembro desses dois: da Erêndira e do Tartufo. Pode ser que eu tenha feito outros, mas que nenhum deles estava dentro de um projeto. Que eu dissesse: "isso aqui faz parte de um projeto de desenvolvimento, de um grupo. Não espetáculo que tinha. O cara ali: "Ah Nando estou aqui com um texto. Não gostaria de fazer?" Então vou fazer. Nada dentro de um projeto. O meu projeto pessoal que era trabalhar como palhaço, estava desenvolvendo ele fazendo A Banda, entrando em contato com a linguagem, fazendo espetáculo, e no meu treinamento, nos meus cursos que eu fazia.

Essas coisa que pintavam eram esporádicas. Eu gostava de fazer. Eu gosto. Tanto que eu estou ensaiando um espetáculo agora, que não tem nada a ver com clow. Mas eu sinto que eles estão meio soltos. Não estão dentro de um projeto, de uma trajetória que eu esteja já buscando alguma coisa minha. Aí, durante muito tempo, eu não trabalhava. Só fazia publicidade. Eu lembro que existiam altas brigas com a Élida, porque:"Oh Nando, você não pode não fazer nada." "Mas eu acho ótimo. Mas eu não paro. Estou fazendo bicicleta, estou fazendo meu curso. Eu não tenho nenhuma culpa de estar fazendo isso." Só que começou a pintar aquela coisa de realmente a gente nunca sabe o que vai ter no mês seguinte, a gente começou a pensar na idéia de ter filho. Eu disse: "Realmente, você tem razão." Aí eu comecei a fazer um outro trabalho paralelo à essa parte artística, que é um trabalho com meu irmão, de acessória de comunicação pra empresa, pra gente começar a ter uma coisa mais certa. Mas durante um ano, um ano e meio, eu só fazia esses espetáculos que eu estou te falando, esses cursos e testes de publicidade, e gravava comercial pra ter dinheiro. E eu me admirava com a minha tranqüilidade com essa atividade absolutamente incerta. Você não sabe o que você vai ter no mês seguinte. Não sabe se vai pegar filme ou se não vai. E numa boa, e tudo rolou legal. Até que ela disse: " Não, agora acho que tem razão, porque se a gente quer ter filho e tal."

Aí eu comecei a ter outras demandas de ter uma coisa mais... E também começou a surgir essa necessidade de estar desenvolvendo um projeto, não ficar com um trabalho aqui, pintando uma peça ali, pintou um comercial aqui, um filme ali. Eu comecei a amadurecer essa idéia do projeto de desenvolver a linguagem do palhaço, e tal. Aí então, os Doutores entraram preenchendo isso, preenchendo também a idéia de dizer: "Que bom. Agora eu vou passar, a saber, o que eu vou ganhar no final do mês, ou quase. Vou estar dentro desse projeto que eu estou querendo ter de ter um projeto focado em alguma coisa. Não ficar no: o que pinta eu faço, que era o focar no desenvolvimento do meu palhaço, e a idéia de que eu queria levar alegria para crianças hospitalizadas. Era o que eu dizia lá no site da Internet, dos Doutores. P - Nando, eu queria te perguntar o seguinte: O curso de Economia e de História, você não seguiu mais, assim profissionalmente? R - O que eu fiz com a História, foi que eu dei aula. Eu dei aula dois anos e adorava. Adorava, muito legal. Se bem que eu não sei. Eu acho que eu adoro mais agora que eu não dou, do que quando eu dava. Hoje eu falo que eu adorava, mas quando eu lembro, era pesado. Estudava das oito ao meio dia e se faltou aluno eu ficava de saco cheio.

As pessoas ficam também. Tanto é que eu fazia muito teatro na aula. As crianças adoravam, mas era pra mim. Dizia: "Ai cara, que saco." Então, eu tinha vários personagens que davam aula, que davam aula no meu lugar. Eu brincava muito. Era um pouco maçante, mas eu acho que eu seguiria a carreira, justamente por opção. Na IAD eu comecei a ter mais vantagens, saí pra fazer o "Aulis", comecei a ver que a minha vida artística vai começar a exigir uma dedicação integral. E a vida de magistério também. E aí, eu optei: "Então eu vou parar de dar aula." P - Você acabou atuado de ator na aula. R - Com certeza. Eu acho que as crianças me adoravam, porque eu ficava inventando personagens. Porque eu ficava cansado. Então, eu tinha vários personagens que davam aula, que entravam, que brincavam. Eles adoravam. E eu também. Eram momentos em que... "Ah. Deixa eu brincar um pouco, que está fogo." P - E o futebol? Você falou tanto da casa onde você jogava, depois na escola, no Santo Cruz. E o futebol hoje? Como é que ele está na sua vida.

R - O futebol é hoje na minha vida como uma grande frustração, porque por conta do que eu vou contar mais pra frente, que é da minha experiência... Eu não consigo mais jogar futebol. Eu não consigo nem mais correr. Então, eu não posso mais jogar futebol. Então, até outro dia a Luciana me convidou, que é uma amiga minha que faz o clow, a menina que fazia A Banda. "Pô, vamos ver o pessoal jogar bola segunda feira?" "Você é louca. Ver o pessoal jogar bola? Isso é levar diabético numa doceria." Ela falou: " Vamos, não liga pra isso não." Falei: "Não vou." Agora, eu gosto muito de ver só que os caras... "Pô, eu não acredito. Se está passando Fluminense e Friburguês, se eu não tiver nada que fazer eu assisto. Com prazer. Adoro. Adoro futebol. Até eu ter uns 18 anos, o meu sonho, a minha fantasia, eu acreditava que eu ia ser jogador de futebol. Coisa que eu mais gostava de fazer. Com certeza. Eu lembro que quando eu era moleque – agora vou voltar à infância (risos) – P - Pode voltar. Vamos lá; R - Eu pegava o jornal de manhã... Eu sou corintiano. Eu pegava o jornal de manhã e decorava a escalação do time adversário do Corínthians no jogo, - porque a do Corínthians eu sabia – aí eu descia lá pro playground, eu fazia o jogo todo narrando pra minha cabeça. Dizia assim: Corínthians invadiu a área... (risos) Decorava a escalação do time de Jaú eu botava a bola no meio de campo, ali no meio do playground, que também era o meio de campo, e fazia a narração do jogo todo. P - Falando assim como rádio?

R - Não. Não. Na minha cabeça. Jogando sozinho. "Geraldão deu a saída pra Palhinha, Palhinha toca pra... O cara roubava a bola, porque eu tinha decorado a escalação. Eu fazia o jogo inteiro. Fazia o intervalo, fazia entrevistas. O intervalo na minha cabeça. Fazia o comentário do jogo pro Corínthians. Fazia comentário do jogo. "Não, veja bem, o Corínthians...". P - E o Corínthians sempre ganhava? R - Não imagina. Ah. No meu jogo lá em baixo? Claro, claro. Sempre ganhava. E eu ouvia o jogo no rádio e via o vídeo tape na Gazeta (risos) P - Você ensaiava, você ouvia, depois ainda via. R - É. Eu era muito doido. Eu era muito fanático. Eu botava a bandeira do Corínthians em cima do rádio. E o jogo era as nove, eu deitava as oito e meia. Eu saia da sala, meus pais viam o Jornal Nacional, eu ligava, já ouvia todo aquele papo de antes do jogo, com a bandeira coberta o rádio, quer dizer, cobrindo o rádio, e se o Corínthians ganhasse, eu ia ver o vídeo tape.(risos). P - E se perdesse? R - Se perdesse eu ia dormir. Fazer o que? (risos) P/3- E até hoje você é fanático assim? R - Não. Então, eu fui cada vez... Até outro dia eu vi o final do campeonato mundial entre Corínthians e Vasco, e meu irmão falou assim: "Mas Nando, você ficou tão frio." "Não é frio. Eu fiquei feliz é claro, mas não tenho mais "Ah....." Eu fui no estádio outro dia ver um jogo, com esse meu amigo Rogério, que também é corinthiano. P/3- Que jogo foi? R - Foi Corínthians e Santos. Não, a gente não foi ver. Foi na TV. Aí o Corínthians ganhou e ele queria sair com bandeira. Falei: "Ah Rogério. Incrível. Sair com bandeira?" Eu já saí, já fui na Paulista, no Campeonato Paulista de 77. "Ah Rogério, que saco. Sair com bandeira" Eu lembro que eu sai tirando sarro, e eu inventei o seguinte: Como era? Era assim: (cantando) "Campeão.

Eu me identifico por completo com a vitória do timão." (risos) Hoje eu não sou mais tão... Eu adoro futebol, mas a coisa do fanatismo... Claro eu sou corinthiano, gosto de ver jogo. O dia que tem jogo do Corínthians eu digo: "Hoje eu não vou sair. Desculpe, mas vou ver o jogo do Corínthians." Mas essa coisa de botar a bandeira no rádio... Eu chorava bicho. Em 77 quando o Corínthians foi campeão, eu chorei. Teve um lance que um jogador chutou a bola na trave e eu chorei. Minha mãe desligou. (risos) Eu era completamente doentão. Isso eu não sou mais. Mas eu adoro futebol. P - E você sonhava em ser jogador do Corínthians? R - Claro. P - E da Seleção? R - Claro. A minha estréia na Copa ia ser em 86, com 18 anos. Eu ia jogar, e eu já tinha vislumbrado tudo. E eu ia estar encerrando a carreira agora, na Copa de 2002. P - Nossa, fez a trajetória completa. R - Claro. Com 18 anos eu ia estrear. Como centro avante (risos) Eu tinha certeza. Certeza não. Eu pretendia. (risos) P - Nando, vamos continuar nossa entrevista, com seis meses de intervalo. Você já tinha contado sobre sua infância, sua mocidade, algumas coisas, do casamento... Ficou pra trás você falar sobre a sua participação no Greenpeace que você falou que é sócio. R - Na verdade, eu sou só associado. Eu não tenho uma participação efetiva. Eu só contribuo mensalmente. P - Tem algum motivo especial por que você chegou... R - A minha vontade. Eu admiro o trabalho, acho que é um trabalho necessário, importante. Também, não tinha uma disponibilidade de estar indo nos barcos, tentar segurar os pesqueiros. Quero fazer alguma coisa. O que eu posso fazer? Contribuir mensalmente com uma grana. P - Até hoje você contribui? R - Sim. Todo mês. Porque é uma preocupação que eu tenho com o planeta. Geralmente as bandeiras deles eu compartilho. Então, vou ajudar. P - Então, se você não tem uma participação tão efetiva, tão direta, vamos tocar o barco em frente. R - Sim. P - Você me falou na outra vez, que você praticava futebol e Ioga. Você quer comentar alguma coisa sobre essas duas atividades?

R - Ioga eu pratico hoje, futebol eu não pratico mais. Ioga é uma coisa que eu sempre tive curiosidade, eu tinha a sensação que era uma coisa que eu ia curtir fazer. Sempre meio que eu namorei de longe, e aí, por conta de eu não conseguir mais jogar futebol é que eu fui fazer Ioga. P - Não foi junto? R - Não. Não. Minha atividade sempre foi jogar futebol. Aí, quando eu não conseguia mais jogar futebol, falei: "Pô, eu quero fazer algum esporte, alguma coisa pra... enfim." Aí, eu pensei na Ioga e comecei a fazer, estou gostando muito, achando muito legal. Tem sido... Pra mim também foi surpreendente, porque eu tinha um pouco uma visão preconceituosa de que a Ioga era uma coisa pra velho, meio devagar... meio... paulera. E eu estou fazendo só eu e a professora, e então é uma coisa voltada pra mim, entendeu. Levando em consideração as minhas limitações, está sendo muito legal, porque eu queria, depois que eu não conseguia mais jogar futebol, meu esporte era andar de bicicleta. Que eu continuo fazendo, que é o esporte aeróbico que dá pra fazer. E a Ioga também dá porque lida com alongamento, com força, com concentração, com uma série de coisas que tem sido muito legais. P - Faz tempo? R - Faz um ano. É recente. Mas eu me dei super bem. Estou curtindo muito fazer. Agora em dezembro fez um ano. E eu quero seguir. P - E o que acrescenta para você a Ioga? R - Na verdade é assim. Acrescentar, não sei exatamente o que acrescenta, mas ela permite isso que eu te falei, que por conta das minhas limitações físicas eu tive que parar de fazer qualquer esporte que eu tivesse que correr. Eu queria... Eu sempre fui um cara que pratiquei esporte. Gostava de futebol, mas além de futebol sempre fiz outras coisas, remava, jogava basquete. Sempre fui assim.

Gostava de correr. E aí, eu queria uma alternativa para que eu pudesse estar sentindo que meu corpo não está parado, não está enferrujando, ficando velho. (risos) Eu queria fazer alguma coisa. E aí a Ioga, eu achei que era uma coisa que estaria dando pra eu fazer. Até eu lembro que eu pensei assim: "Se eu não puder ter força, pelo menos vou ter flexibilidade." E eu fui procurar a Ioga pensando um pouco nisso. Mas depois eu vi que na verdade, era engano meu, porque na Ioga você trabalha a força também. É diferente. É um tipo de trabalho diferente, mas que eu acho até mais efetivo. Tem um exercício que mexe os mesmos movimentos que você mexe na flexão de braço, que é muito mais lento. É outra coisa, mas eu sinto que faz um efeito igual ou até acho que maior. Então, ela veio no lugar de suprir essa ausência que eu comecei a ter, em função das minhas limitações físicas. Acho que é uma coisa que tem um pouco a ver com o meu jeito assim de ser.

Eu gosto de um trabalho que é mais lento, que é mais... Nunca gostei muito de coisa muito rápida, coisa muito... E a Ioga é uma coisa que é por aí, uma coisa que é você chegar na postura, permanecer na postura, desmontar a postura... Até a Élida começou comigo e é uma boa, porque ela é outra pilha. (risos) Ela já é mais... E eu gosto disso. P - E passou do futebol, que também é outro extremo. R - Então, mas na verdade, eu não passei de livre e espontânea vontade. Eu passei porque... Na verdade, foi contra a minha vontade. Jamais deixaria de jogar futebol, se eu pudesse jogar. Eu não jogo não porque eu não quero, mas não jogo porque eu não consigo mais. Eu jamais deixaria de jogar.

Mas, além disso, também, o trabalho da Ioga tem uma coisa de concentração, de respiração, que serve até pro trabalho de ator. Trabalha muito com exercício de respiração, que é uma chave pro trabalho de ator, a respiração. Não do trabalho que eu faço no hospital, mas no trabalho no teatro mesmo. A respiração é muito legal. Então, eu sinto que ela vai... E também por trás das práticas, tem todo um conceito que é mais abrangente, de uma cultura, uma coisa mais ligada a uma prática espiritual, digamos assim. O que também me interessa, me agrada. Então, foi suprindo várias coisas. Não é que acrescentou, não foi uma coisa nova. Ela pintou justamente porque eu namorava ela. Eu já tinha uma afinidade. Tanto é que eu intuía: "Acho que é uma coisa que eu vou curtir." Pelo que eu ouvia falar. P - Você falou dessa parte espiritual. Então vamos pegar esse lance e vamos falar um pouco sobre se você tem um tipo de religião, alguma crença, alguma coisa que você quer deixar registrado aqui na sua história? Esse lado. R - Eu tenho, mas eu não sei justamente nomear. Na minha adolescência, eu sempre fui um ateu convicto, um marxista, essas coisas assim. Com o passar do tempo, até pela minha história pessoal, entendeu? Na verdade, foi gozado porque eu quis fazer a Primeira Comunhão. Acho gozado isso, porque eu era ateu pra, la, la´... Mas eu lembro que eu era moleque, e eu comecei a ter um pendor assim... Eu tenho uma tia que é carola. Acho que toda família tem tia carola.(risos) Eu lembro que uma época eu comecei a querer ir com ela na missa. Foi uma coisa que não foi forçada pelos meus pais, tipo: "Vai lá fazer..." Foi meio que espontâneo.

Eu lembro que eu também quis fazer Primeira Comunhão. Quando eu era moleque, tinha essa ligação assim, embora... Porque isso que eu estou falando que não foi forçado. Isso que me chama a atenção. Ninguém, meu pai, minha mãe falou: "Ah. Você tem que fazer a Primeira Comunhão." Eu que quis. "Ah. Eu quero fazer a Primeira comunhão." " Ah. Que bom, que legal" E eu lembro dessa época que eu ia com essa minha tia carola na igreja, nas missas. Eu lembro, que eu devia... - Eu até comentei na primeira fase – que eu devia ter uns 13 ou 14 anos e eu perguntei pros meus pais, ali num festival em Campos de Jordão: "Qual é o sentido da vida?" E eu lembro que eles ficaram meio assim... E veio um pouco daí, essa busca. É uma pergunta primária, mas obvia. A grande sacada é o obvio. Você conseguir descobrir o óbvio das coisas. Acho que veio um pouco já daí, essa coisa. E depois, o lance da Esclerose me fez cada vez mais fazer com que eu fosse... Fui fazer terapia, fui fazer outras medicinas diferentes, que acabou fazendo com que eu mergulhasse mais pra dentro de mim, que eu fosse me pesquisando. Eu sempre fui um cara muito perguntador das coisas, mas assim, de qual o sentido das coisas.

Até quando eu vou fazer mapa astral, os caras falam coisas que eu falo: "Acho que isso tem a ver." Eu reconheço isso. Que eles sempre comentam que tem uma coisa de ser muito profundo no sentido... Não que é melhor, do que é errado. Mas que vai buscar a raiz das coisas. Dizer: "Pra que?" Pergunto: "Qual o sentido da vida, cara? Pra que eu estou fazendo teatro?" Tem toda uma coisa muito de "Pra que?", que via muito de buscar. Eu sinto que eu tenho esse modo de olhar as coisas, de ir buscar ali a essência. "Onde é que está?" Eu lembro de quando eu adorava Raul Seixas, quando eu era adolescente, a nossa grande máxima era assim: "Que o obvio era a grande sacada." Que era um pouco isso. Eu acho que isso acabou com o tempo. Você vai perguntando, perguntando e diz: " Poxa, se eu continuar a perguntar assim, vou parar em Adão e Eva." E é isso. Vai parar em Adão e Eva mesmo. Eu me fascino muito com Astronomia, com Física... Porque eu acho que são coisas que me ajudam nessa busca de... Que não tem exatamente um objetivo concreto. É um jeito de ser. Eu sou, eu tenho essas perguntas, essas coisas assim. Até às vezes meus amigos me gozam. Tiram sarro: "Lá vem o Nando falar aquelas coisas." Tipo: "Cara, você já parou pra pensar? Olha que informação impressionante; A Terra gira a 1400 quilômetros por hora. Nós estamos aqui num puta gás." (risos). E nela mesma. E depois, em volta do Sol, com uma velocidade astronômica, que eu não lembro, sei que um número absurdo.

E o Sol em volta do centro do Universo em outra velocidade absurda." Essas coisas me fascinam muito, fico muito intrigado com isso. Sempre que eu vejo essas coisas eu vou buscar, ler, curtir. Eu acho, que isso tudo tem a ver com essa busca espiritual, porque eu acho que você vai levando isso cada vez mais adiante, mais pra um limite, e você acaba chegando num lugar, em que não tem muita explicação. E aí assim... Outro dia até comentei com a Élida, que uma coisa que não é muito poética, mas que eu falei assim... Que não é na verdade um ponto final, mas foi uma coisa que eu ..."Cara, descobri que Deus é um número." Na verdade não é isso exatamente, mas é que eu estava vendo um livro sobre os Fractais que é uma coisa muito fascinante, que todas as formas vão se repetindo e vão... Você pega uma folha, por exemplo, da árvore aqui de fora, do limoeiro. Aí você coloca ela no.... Por isso eu gostei daquele papo que a gente teve com aquele cara.

P - Do Dante? R - É. Do Dante. Que as formas geométricas vão se repetindo, e você consegue ampliar e... E chegou no... Os caras foram buscando isso, os matemáticos,os físicos, de buscar uma forma que á primeira, a inicial de todas. E por matemática, por equações, você consegue montar uma equação que represente aquela forma geométrica, de fractar o primeiro de todos, que é mesmo a busca do átomo e tal... É o princípio de tudo, de onde tudo começa. É a base de tudo. E isso pode ser expresso em uma fórmula matemática. O cara faz uma fórmula matemática e fala: "Deus é isso".(risos) Porque é a base da onde começou tudo. O que está presente em tudo. É uma forma geométrica que é a primeira de todas. É um pouco coisa do átomo. E aí, isso tudo já era um pendor que eu tinha. Eu sempre tive essa curiosidade, essa afinidade de gostar disso.

E aí, a questão da doença, também me jogou pra isso. Porque ela me colocou uma série de limites que eram muito absurdos pra mim. Você com 22 anos não conseguir mais jogar futebol? Isso é pra um cara de 80 anos, não pra um cara de 22. P - E quando começou? R - Na verdade começou, foi diagnosticada em 90. Eu tinha 22. Aí a gente foi fazendo um retrospecto e a gente viu que o primeiro surto foi em 88. E aí eu comecei a jogar mal, cada vez pior, cada vez pior, até a hora que eu comecei a não conseguir jogar mais. Aí, "Tudo bem, mas eu ainda corro." Agora nem correr mais eu não corro. Então, você se ve diante de alguns limites... P - Tem que buscar outros caminhos. P - Em 88 o que você teve? R - Em 88 eu tive uma pseudo meningite. Pseudo porque eu tive... É engraçado, porque era uma menina que eu estava paquerando. A gente foi ver um jogo, uma final de campeonato, meu time perdeu, e eu passei o jogo inteiro com uma dor de cabeça absurda. Uma puta febre. Aí eu fui pra casa com uma febre super alta. E a febre não passava e eu fui fazer um monte de exames e aí chamaram um médico infectologista, um cobrão, e o cara pediu um exame do liquor, que foi um horror fazer aquele exame de liquor. É horrível. E aí o cara disse que era uma meningite. E minha mãe tem uma guia espiritual, uma mulher que benze, e sempre ela falava: "Dirce, não é meningite que o Nando tem." E quando acabou essa meningite eu fiquei com os pés dormentes.

P - Com 20 anos? R - Foi em 88. Eu tinha 20. E aí o médico falou que essa dormência dos pés era por causa dos remédios e pra eu não dar muita bola. Mas aí em 90, quando foi diagnosticada a Esclerose Múltipla, que eu contei isso, o cara falou: "Então essa dormência já foi um primeiro surto teu." Não necessariamente que a febre tenha sido, porque o surto não tem nada a ver com febre, mas essa dormência nos pés, o cara falou: "Então já foi um primeiro surto teu." Aí em 89, também no remo, eu comecei a sentir dormência nos braços. E aí eu fiz um monte de exames e nada dava. E o cara falou: "Para de remar. Talvez esteja fazendo muito, e esteja dando algum problema" E aí também o cara falou: Então isso que você teve em 89, como vocês me contaram, também foi um surto."Já era um segundo surto. Mas isso foi em 90. P - Vamos pegar lá do trem, que você falou que estava na Itália e foi onde começou, que diagnosticou. Você estava na Itália... R - É Eu fui pra Itália e estava fazendo estágio na Fiat e fazendo o curso de teatro à noite e puta, maravilhado. Fora de casa pela primeira vez, sem os pais, estava no terceiro e quarto mês viajando, curtindo. Trabalhando num lugar onde o Brasil ia jogar a Copa do Mundo, que eu achei o máximo. Meu sonho era ver uma Copa do Mundo.

E aí, eu ainda não tinha alugado o apartamento, que aquele cara que eu conheci no trem disse que o amigo dele ia sair do apartamento, mas o amigo não tinha saído ainda. Então eu estava num hotelzinho. E aí eu lembro que eu cheguei em casa e eu fui... Bom, eu já tinha sentido dificuldade pra assinar. Todo lugar que eu entrava e que tinha que assinar a ficha do hotel, eu vi que minha mão estava meio estranha pra assinar, mas tudo bem. Até que um dia eu acordei, peguei o desodorante e eu não conseguia, com a mão esquerda, apertar o desodorante. Eu não tinha a força pra fazer isso aqui. Falei: "Cara, que coisa estranha." Mas eu fui trabalhar, fui lá no dia do estágio, voltei à noite e falei: "Cara, não estou conseguindo apertar isso. Que coisa esquisita. O que está rolando?" E eu percebia que a minha coordenação pra escrever estava pior. Falei: "A minha letra está estranha, está feia, está esquisita.

E eu estou sentindo dificuldade pra escrever." E aí, o desodorante foi o ápice. "Poxa, não estou conseguindo apertar o botão do desodorante. Será que eu estou pegando errado?" Pegava de novo: "Não. É assim. Que estranho." Aí falei:" Estou na Itália, primeiro mundo, deve ter hospital público. Eu vou no dia seguinte, e não vou nem falar nada no meu estágio pra não gorar. Está bem legal. Daqui a pouco tem Copa e eu não quero perder também." Aí eu fui num hospital público que tinha lá. Cheguei e passei por uma primeira consulta. Contei o que aconteceu. Eu já contei pra ele que já em Londres, onde eu estava há uns três meses atrás, eu senti que eu já não estava jogando tão bem. Que a minha perna estava um pouco estranha, meio adormecida, não estava 100%, mas depois tinha voltado. E aí quando eu contei isso e contei esse negócio da mão, ele me passou pro neurologista. Mas tudo sem falar comigo, tudo muito assim...

Primeiro eu fiquei impressionado de que eu cheguei no hospital, sem ser um italiano e já fui atendido. Não é esse hospital público que a gente vê no Brasil. Fiquei muito encantado. Mas o encantamento passou logo, porque daí, os caras não falam com você. E eu falava italiano. Estava trabalhando na Fiat. Dava pro cara se comunicar. Não é porque eu era um estrangeiro. É porque não é prática. Aí o cara me passou pra um outro médico que eu nem sabia de que era. Não sabia nem do que ele tinha suspeitado, me encaminhou pra outro especialista. "Olha, vou te encaminhar pra um especialista." "Qual especialista? Por que esse especialista? O que você acha que é?" Nada foi falado. Aí eu fui pra esse outro especialista, contei as histórias e ele pediu pra fazer algumas coisas tipo: fechar o olho e botar o dedo no nariz, coisa assim, e tal. E falou: "Está bom. Agora você passa em tal... outro guichê." Tudo sem me dar retorno nenhum do que estava acontecendo e eu ali numa boa."É uma bobagem."

Aí eu fui nesse outro guichê, me mandaram esperar, fiquei uns 40 minutos sentado e aí a mulher me chamou com uma trouxa de roupa de cama e falou: " Suo letto é il 12." Como meu leito é o 12? O que está acontecendo?" Ela falou: "Você está internado e seu leito é o 12." Falei: " Pêra aí. Eu quero entender. Eu só vim fazer uma consulta porque minha mão não está apertando o desodorante. E eu estou internado?"(risos) Ela falou: "É. O médico disse que você tem que fazer um tratamento, você vai ficar internado..." Falei: "Não posso ficar aqui." Fiquei muito assustado. " Eu não posso ficar, estou com minhas coisas no hotel." "A gente manda buscar." Aí eu fui ficando assustado porque era uma urgência me internar e todas as coisas que eu colocava, eles contornavam. "Não. Eu trabalho na Fiat." "A gente entra em contato." "Minhas coisas estão no hotel." "A gente manda buscar." Falei: "Cara, o que eu tenho, que os caras não querem me deixar sair daqui?" Eu fiquei muito passado. Nem estava bravo por não ter sido falado, por não ter tido a conversa, "Pô, o que eu tenho?" P - Ficou assustado.

R - Eu fiquei assustado, fiquei com o entindo no livro do Kafka. Eu fui lá e... "Os caras querem me prender aqui e tudo o que eu falo eles tem como contornar. Eu devo estar com uma coisa muito grave. Deve ser contagiosa, que eu não posso sair daqui mais." E contando aqui, é cinco minutos mais lá, fiquei umas duas horas nesse papo de "Não, não posso ficar, tenho que ir..." E eles não me falavam o que era, do que eles suspeitavam, qual era o diagnóstico. Só falavam que eu tinha que ficar no hospital, que eu ia fazer um tratamento. "Pode ficar tranqüilo. Não vai te custar nada." "Cara, não tem problema que não vai me custar nada. Não vou ficar num hospital que eu nem conheço, numa cidade que eu não conheço, num país que não é o meu. Não vou ficar internado aqui." "Mas você não pode sair". Eu fiquei muito... P - Em nenhum momento eles falaram... Você já tinha feito algum exame? R - Nada. Eu não sabia nada. Não tinha a menor idéia do que era. Pra mim, o que estava diferente é que meu dedo não estava apertando o botão do desodorante. Achei que era alguma bobagem. E era tudo muito grande pra mim. O fato de eu estar num outro país, de língua estrangeira e os caras não quererem me deixar sair do hospital.

E isso que parecia ser kafkiano. Era uma coisa toda enorme em volta de mim: hospital, "Seu leito é o 12". Eu estava com medo. Falei: "Cara, o que eu tenho?" Mas aí deu uma hora que eu decidi: "Não, não vou ficar. Não vou ficar." Tive um ataque histérico: "Não vou ficar aqui. Eu vou embora. Não vou ficar aqui. Eu vou sair." "Você não pode sair." " Cara, como não posso sair? Estou preso no hospital?" Aí, quando ele falou que eu não podia sair, falei: "Eu vou sair cara. Eu não vou ficar aqui. Eu vou sair de qualquer jeito. Isso é um hospital." A princípio era pra me ajudar. A mulher pediu pra eu me acalmar, pediram um copo d’água, porque eu comecei a gritar: "Eu quero sair daqui. Eu vou sair." "Não pode." Então ele falou: "Então vamos fazer o seguinte: Você quer muito sair daqui? É uma opção sua?" "É." "Você se responsabiliza?" " Me responsabilizo." " Então você vai ter que preencher um termo, um documento, dizendo que você saiu daqui à revelia das orientações dos profissionais do hospital..." Aí, eu já... " Cara, o que eu tenho? Vou ter que assinar um documento?" Achei que era uma coisa contagiosa... P - Você estava sozinho? R - Estava sozinho. Eu tinha acabado... P - Você perguntava? R - Eu perguntava e eles falavam assim: "Você tem que ficar internado. Você vai fazer um tratamento." "Tratamento pra que?" Ele não falou: "Não, o que você tem é isso." Era completamente surreal. "Você vai ter que ficar internado alguns dias pra receber um tratamento..." "Mas o que eu tenho?" "Olha, por enquanto...

O médico vai conversar com você." Falei: "Mas que médico vai conversar comigo? Eu não vou entrar num quarto, num hospital, num país que eu nem conheço." Tinha acabado de chegar na Itália. E estava vivendo um sonho: "Estou fazendo um estágio na Fiat, estou ganhando legal, daqui a pouco vem Copa do Mundo, vou ter um apartamento... E vou ter que sair de tudo isso pra ficar num quarto de hospital, sozinho, numa cidade que eu não conheço? Claro que não. Vou embora daqui." Mas, ao mesmo tempo que tinha isso, tinha o susto: "O que eu tenho que os caras querem me internar" E me assustava muito o fato de vir um documento pra eu assinar, pra eu me responsabilizar. Eu achava que era muito... Falei: "Cara, devo estar muito mal." Pira só: eu assinei o documento e saí de lá. Eu lembro que eu saí na rua e: "Cara, o que está acontecendo?" Saí muito transtornado e isso aí, eu fui fazer.... tipo, eu entrava na Fiat umas 10 da manhã, e eu fui cedinho, achando que eles veriam o que é, o que estava acontecendo no meu dedo, o cara me dá um remédio e eu vou pra Fiat. Isso era umas três da tarde.

Aí eu fui pra Fiat e todo mundo: " Eh Luigi, dove stavi?" Aí eu contei a história e eles falaram: "Não. Então vamos passar pelo médico aqui da Fiat." Eu fui, passei pelo médico da Fiat. Ele não falou nada, mas o diretor, que foi o cara que me aceitou pro estágio, me chamou e falou: "Olha, Bolognesi, vamos fazer o seguinte? Você vai... Agora é Páscoa aqui na Itália. E na Itália a Páscoa é o nosso Natal. É a festa grande, que reúne a família. Vai ter Páscoa? Eu sugiro o seguinte: você vai pro Brasil, passa a Páscoa com seu pai, com sua mãe, faz os exames lá que você tem que fazer, e volta pra cá. A Fiat paga a sua passagem de ida e a sua passagem de volta, e seu estágio continua aqui." P - Nossa. R - Foi um paizão. "Você vai, porque Bolognesi, na Páscoa, ficar longe de seu pai. Imagina se o seu pai vai saber que você está fazendo exame aqui? Não. Vai fazer esses exames que você tem que fazer, junto com a sua família, com tuo babo, com la tua mamma. A Fiat te paga tudo." E aí, eu ainda estava muito.

Eu achei o máximo. Que legal. "Então eu vou, vou pra lá, volto." "E o estágio continua aqui?" "Continua. Tudo bem." Aí eu fui com aquele cara do apartamento, avisei ele que eu ia voltar pro Brasil, mas eu ainda estava muito inconseqüente assim de..."O que será que eu tenho?" Já passou "O que será que eu tenho." Alguns exames e os caras estão me pagando pra eu voltar lá pro Brasil. E aí foi ótimo, porque eu voltei de primeira classe e o pai que era amigo aqui da empresa que meu pai trabalhava, que era de Minas Gerais, voltou comigo. Eu lembro que eu estava lá na primeira classe e eu estava com o olho fechado, mas não estava dormindo, e ele veio e colocou o cobertor assim em mim. Falei: "Ah que gostoso." Porque eu estava longe de casa e achei legal, que ele veio e colocou o cobertor em mim. Até fingi que estava dormindo. Era um senhor, podia ser meu avô. Tinha uns 70 anos. Aí nós chegamos no aeroporto, eu avisei meus pais que ia voltar porque os caras da Fiat tinham me dado uma passagem. Não contei do problema médico, porque meus pais iam pirar. Eu só falei isso e falei que como era Páscoa e a Páscoa é um feriado muito importante na Itália, eles me ofereceram a passagem e eu topei. Eles acharam, meus pais acharam ótimo porque já estavam há quatro meses sem me ver.

Aí eu voltei. Quando chegou esse cara de Minas Gerais junto comigo, ele contou: " Ele está vindo por causa disso, disso, disso. Legal vocês levarem ele num neurologista, porque tem algumas possibilidades já de um diagnóstico apontado, pelo que ele relatou pro médico da Fiat, mas é legal vocês consultarem o médico de vocês aqui." E eu, puta, na boa. Não estava nem um pouco. Já passou aquela preocupação que eu tive no hospital, que pra mim foi uma experiência absurda. Inesquecível aquela manhã que eu passei naquele hospital. Aí eu cheguei, nós marcamos um neurologista, que era assim um... Meu pai sempre disse: "Coisa de saúde tem que ir no bom. Qual é o melhor neurologista?" Aí nós fomos no cara que também foi muito estranho. Eu contei a história dos meus sintomas, do lance da perna, da mão, e levamos o exame que eu fiz pra diagnosticar meningite em 88. Aí o cara pegou aquele exame e nem pediu mais nada de exames. Ele falou: "Pelo que você está me contando e por esse exame aqui, você tem Esclerose Múltipla." "Puta, o que é Esclerose Múltipla?" "Ah. São surtos que você tem e quando esses surtos acontecem tem esses sintomas que você tem.

Não tem cura, não tem remédios pra se tomar. Só toma remédio quando tem surto. Que é a Cortisona. Vou te dar a receita agora, você vai tomar e você pode voltar pra Europa numa boa. Só leva a receita pra se você tiver um novo surto lá, você tomar e vai fazer sua viagem." Eu achei ótimo. "Pô, que médico bacana. " "Vai fazer sua viagem..." Depois, quando o tempo foi passando, falei: "Cara, que horror. Não é nada disso. Não é assim." "Isso é um surto, quando você tem você toma Cortisona, coisa que não tem nada pra fazer." E não é isso. É uma doença auto-imune. É outra coisa. Aí eu voltei pra Europa, nesse pique de "Ah. Tudo bem." Eu lembro até que eu tirava sarro, porque tem um amigo meu que sempre me chamava de velho. Aí eu falava: " Ah. Você falou que eu sou velho. Ta vendo, agora eu tenho Esclerose Múltipla. Não sou só esclerosado. Tenho Esclerose Múltipla." Tirava sarro. P - É de velho. Esclerose e, uma coisa de... R - ...de velho. Não tinha a ficha. Não é que não caiu. Não caiu porque não me foi falado. O que ele me falou foi assim: "Quando você tiver os sintomas, você toma Cortisona. Mas, toca sua vida." Toca sua vida, o caramba. É outra coisa, cara. Aí, eu voltei pra Europa, tive alguns surtos lá, mas assim: eu estava tão... Não estava consciente do que significava isso, eu lembro que – até eu acho bacana – que eu levava com super bom humor. Eu fui viajar - eu estava em Paris com um amigo meu – e a gente foi pra Holanda e a gente alugou bicicleta e a gente ficava viajando pela Holanda de bicicleta, e eu estava tendo um surto nas pernas de novo.

E a minha perna, então, eu perdi a coordenação e então o tempo inteiro a perna escapava do pedal, e quando a gente ia parar, eu...Ah. Não. O que eu fiz? Como a minha perna escapava, a gente parou numa floricultura, eu peguei umas cordas e eu amarrei meu pé no pedal pra ele não escapar mais. Só que aí foi um problema porque toda vez que eu ia parar, que eu ia botar o pé no chão, a bicicleta caia, porque o pé estava amarrado no pedal. E era um tombo ridículo, porque demorava, mas não tinha mais retorno. Eu percebia que eu ia cair. "Puta, meu pé está amarrado, não tem mais o que fazer." E aí eu tombava. E rindo, numa boa, levando numa boa, sem ficar muito apavorado. Eu lembro que eu comprei o remédio, a Cortisona, tomava e melhorava. Eu lembro que eu fiquei um pouco preocupado quando já passou alguns meses, eu estava em Brugis, na Bélgica e aí também: eu estava lá num albergue e eu comecei a sentir que eu tinha dificuldade de fazer esse movimento aqui. Eu lembro dessa cena: eu tentando fazer esse movimento, não conseguindo. Foi um dia que eu fiquei meio preocupado. E pensei "Pô. Esses surtos estão vindo muitas vezes. Agora não consigo mexer isso aqui." Mas também foi uma coisa que passou logo.

Aí eu voltei pro Brasil depois de um ano... P - Nando, você falou pro médico que quiseram te internar? R - Comentei. Ele falou que o que provavelmente o que eles iriam fazer - porque você pode tomar Cortisona tanto em comprimidos como tomar aplicado na veia – então ele falou: "O que eu acho que eles queriam fazer com você é essa aplicação do... Solumedrol. Solumedrol na veia e talvez também, tem uma médica italiana que chama Dra.Siburra, que desenvolveu toda uma linha de tratamento da Esclerose Múltipla, que passa por lavagem intestinal. Porque ela pressupõe que o problema é causado por uma... ligado à sua alimentação, ao seu hábito de vida. Ela tem a tese de que é um problema que o "start" do processo está no intestino, e por causa de alimentação, e tudo o mais. Então, faz parte do tratamento, fazer lavagem. E supôs-se que talvez fosse isso. Fazer lavagem, tomar o Solumedrol. Mas, não é o caso de tomar o Solumedrol agora. Vai tomar em comprimidos, o Metilcorten, e você vai viajar. Leva sua receita e pronto." P - Tem uma praxe também, os italianos, principalmente com estrangeiros. Não pode sair sem alguns exames controlados. É uma certa responsabilidade. R - Não sei. Mas pra mim pareceu tudo muito assustador. Porque eu falei: "Cara, o paciente sou eu. Eles não falam pra mim nada do que eu tenho, do que vão fazer... Falava: "Eu vou ser internado por que? Pra que? O que eu tenho?" Em nenhum momento foi falado isso pra mim. "Olha, você vai ser internado porque nós estamos supondo que você tenha isso, isso, aquilo outro. O que vai ser feito vai ser isso." Nada." Que que é isso?" Aquela primeira impressão que eu tive: "Pô, que bacana. Primeiro mundo.

Olha como é legal. Você chega e já é atendido." Cara, que situação absurda. Aí quando eu voltei pro Brasil depois desse um ano, que eu também fiquei... – eu tive uns três surtos na Europa – "Esse papo de que não tem nada que fazer, quando tiver surto toma Cortisona, isso está estranho." Aí, eu comecei a procurar, fui procurar outros médicos, eu fui pra Antroposofia, pra Homeopatia. Comecei a procurar outra linha. E foi muito mais legal. Aí é que eu comecei a entender o que era. Porque até então, era uma piada. Dizia: "Então, está dizendo que eu sou velho? Pois é, agora estou esclerosado." Aí que eu fui... "Não, pera aí, não é tão divertido assim. Estou jogando mal, estou chutando o chão pra caramba." Deixou de ser uma coisa folclórica: "Ai que barato..." P - Até então você não sabia o que era isso? R - Eu não tinha entendido o que era. Porque não foi falado também. Falou: "Ah, é uma doença em surto." As informações que me passaram foram essas: não tem cura, acontecem surtos, você pode ter um surto agora e depois passar 20 anos sem ter. É uma coisa que a gente não sabe. E quando você tiver surto, você toma Cortisona. É isso. A doença é isso. E não é isso. É isso, dentro de uma visão.

Uma visão que eu acho que é errada. Aí, quando eu mudei de médico e fui pra Antroposofia, eu fui ler... Aí também caiu uma ficha em mim: "Isso aqui está me trazendo um monte de limitações que eu nunca imaginei que fosse ter." P - Foram aumentando essas limitações? R - Foi. Porque primeiro eu jogava mal. Comecei a chutar o chão, em vez de chutar a bola. Comecei a cada vez jogar pior. Aí teve uma que atingiu minha visão. Aí, no meu olho direito baixou uma barra, e eu fiquei sem enxergar com o olho direito. Aí: "Você toma cortisona que volta." Volta mas fica seqüela. Isso que o cara não me falou. "Puxa, esse cara é um idiota." Esse médico que eu passei. Porque a seqüela é fundamental. Tudo bem. O surto normalmente, você toma o remédio e ele some. Só que quanto mais tempo demora o surto, maior fica a seqüela. E que eu ia ter seqüela, não sabia também. Dizia: "Legal. É uma doença, e quando eu tiver o surto, eu tomo o remédio e vai embora. Acabou." Não é isso. Eu tenho um surto, mas fica a seqüela. Eu não sabia. P - Como é a seqüela? R - A seqüela é assim: vamos supor: Eu tive um surto que atingiu a minha perna, e eu perdi força, coordenação motora e sensibilidade. No surto, isso fica bem forte. Aí você toma o remédio por um tempo, passa esse surto. A sua perna volta, mas não volta como antes. Ela volta, vamos supor, 90%. Isso não é tudo.

Ela volta 90%, mas quando você se submete a esforço físico ou a calor, é como se você tivesse num surto de novo. Então, eu começava a jogar bola de um jeito. Passava 15 minutos, meia hora, quarenta, eu estava péssimo. Minha perna estava completamente débil. Aí eu tinha que parar, descansar 15, 20 minutos e ela voltava. Mas isso eu não sabia. Eu fui descobrindo, porque o médico não passou essa informação. Fui descobrindo. Aí, eu estou jogando tênis – quando eu tive esse surto na vista – passou o surto e... - eu sou canhoto, mas eu jogo tênis com a mão direita. E no começo do jogo tudo bem. Conforme o jogo ia transcorrendo, eu dava raquetada no ar, eu furava a bola, porque o déficit na visão volta quando você está submetido a esforço físico ou ao calor. Então, eu comecei a ver. "Pêra aí, bicho. A coisa é muito maior do que me falaram. Já não estou conseguindo jogar futebol e agora nem tênis. Quando volto a jogar minha visão piora de novo" Aí que eu fui sacando o que era a coisa. Aí que eu mudei pra esse médio de Antroposofia e a gente mudou todo o modo de encarar. Mas foi um processo... Não é que o médico de Antroposofia é maravilhoso. Não é isso. Com o tempo, eu mesmo fui tomando consciência da coisa.

"Pera aí , bicho..." O que se sabe da doença é que é uma doença auto-imune. Sou eu que estou fazendo isso. Sou eu que estou me atacando. Vou falar rapidamente o que é. É o seguinte: É uma doença que ataca seu sistema nervoso central. O que se sabe da doença, é que todo nosso sistema nervoso é coberto por uma camada de gordura que é chamada "mielina" que é como se fosse a capinha de um fio elétrico. O que acontece no surto da Esclerose, é que o seu sistema imunológico ataca a "mielina" como se ela fosse um invasor, e destrói a "mielina". Quando destrói a "mielina", fica em curto, comparando com o sistema elétrico. P - E dói? R - Não dói nada. No meu caso não. O que acontece, não é que dói, é que a sua informação nervosa não chega, ou chega defeituosa. Então, dependendo do pedaço do cérebro onde está tendo essa desmielinização que eles chamam, é a parte de seu corpo que vai ser afetada. A parte que chega a informação nervosa pra perna, pra mão, pra vista, pro resto do corpo. P - Chega até ali, e dali não passa? R - Não é que não chega até ali. Não sai daqui. Sai equivocada. É como se estivesse em curto. Então: "Você tem que fazer ultra-som", " Não tenho que fazer nada. Na minha perna não tenho nada. Ela é perfeita. O meu braço também. É a informação nervosa que chega equivocada. Ou não chega." E aí, o que a medicina diz?

"O que desmielinizou, não se reconstitui." Aí é que fica a seqüela. É como se você ficasse com pequenas cicatrizes no seu sistema nervoso. E essas cicatrizes impedem que a informação nervosa chegue com perfeição. E aí tem os agravantes, que é o calor, o cansaço. Eu não sei exatamente qual é a questão fisiológica, mas isso intensifica esse déficit da informação nervosa. Então, com o tempo, eu fui perdendo sensibilidade, perdendo força, perdendo coordenação motora. "Cara, eu não consigo fazer embaixada." O dia que eu vi que estava fazendo quatro "embaixadas", eu disse: "Cara, o que está acontecendo?" Era uma descoberta. Eu ia descobrindo. Isso que eu achei um horror, porque é uma coisa que... P - Isso ia aumentando? P - Mas é localizada no cérebro? R - No cérebro. Como é informação nervosa, dependendo do pedaço do cérebro que está tendo a desmielinização, a informação nervosa não chega na perna, não chega na mão, não chega na vista.

P - As terminações nervosas? R - A informação nervosa não chega lá, mas o problema é daqui. Não é que aqui está o problema. Está da onde parte a informação nervosa. E aí eu fui entender isso. Mas, o que não se sabe é o que faz com que o organismo passe a atacar a mielina, e reconhecer a mielina como inimigo, e não reconhecer como parte de seu corpo. Então, tem várias teorias. Uma teoria que diz que é vírus. Outra teoria, que é essa da Siburra(?) que é uma...- me fugiu a palavra desde aquela hora – não é infecção, não é poluição. Enfim, não consigo lembrar agora. Tem uma outra que é uma questão de alimentação... P - Intoxicação.

R - Intoxicação. Obrigado. Uma intoxicação alimentar que se dá no intestino. Não se sabe exatamente o que é. Tem a do vírus, essa da infecção e não têm muitas outras. Mas nada disso é confirmado. São suposições. P - Não é hereditário? R - Não é hereditário. Eles têm estatísticas. Acomete mais mulheres, entre 20 e 40 anos. Mais pessoas do hemisfério Norte do que do hemisfério Sul. Tem muitas estatísticas assim. Eu me enquadraria, porque eu tive o meu primeiro surto com 20 anos... Tudo bem que eu não estou no hemisfério Norte, mas enfim... E aí, eu comecei... O que mais me chamou a atenção, quando foi caindo a ficha, foi: "Pera aí. Não é tão uma brincadeira assim. É uma coisa mais séria." Foi ao longo tempo que foi caindo essa ficha. E aí na busca de tentar me curar e de tentar fazer com que os surtos cada vez fossem menores e tudo o mais, o que me chamou a atenção foi: "É uma coisa auto-imune cara. Sou eu que estou me atacando." Então, o tratamento não é Cortisona, coisa nenhuma. O tratamento é eu ter que me investigar, descobrir o que está em desequilíbrio, onde é que está o problema, porque sou eu me atacando. E aí até teve uma época na qual eu fui mais radical. Mudei toda a minha alimentação. Parei de comer carne, totalmente, todo tipo de carne, seguindo um pouco a cartilha da Dra. Siburra, aquela italiana.

E abominei esse papo de "Que Cortisona o que Isso é paliativo. A questão não é essa." Até o momento no qual eu vou fazer um espetáculo, uma tragédia grega lá no Centro Cultural, que foi o melhor espetáculo que eu fiz na minha vida até hoje, que chamava "Aulis", e eu estava tendo um surto nas pernas. E eu estava com esse médico de Antroposofia: "Não, não vamos tomar Cortisona. Vamos continuar com o nosso tratamento" Só que foi ficando cada vez pior, foi agravando. E aí eu já não estava mais conseguindo mais guiar. Comecei a depender de alguém me levar pro teatro. Não estava dando pra guiar. Não tinha mais coordenação na perna pra guiar. Comecei a usar bengala, até o dia que eu caí no palco. Aí o dia que caí palco, foi o dia que... E mentindo. Eu falava pro elenco que eu estava com tendinite na perna. Foi uma estratégia que eu tinha adotado, de: " Eu não vou falar isso pra ninguém, que eu tenho Esclerose Múltipla, porque eu não quero ser café com leite. Se eu falar que tenho Esclerose Múltipla, - "Ah. O cara é café com leite." Então eu não falava. Entrei na IAD e nas aulas de dança, sempre era o "trapalhão".

Mas pra mim era assim: "Eu prefiro passar por trapalhão, e ficar tentando superar o limite, do que assumir o limite e falar: "Isso realmente eu não consigo." Eu odiava a idéia de alguém falar assim: "Nando, esse exercício você não faz." Falei assim: "Eu não quero. Quero fazer todos. O que todo mundo faz." Não queria ser café com leite, que era uma fase inicial de um pouco resistir, a reconhecer realmente os limites. Então, eu falava no teatro que eu estava com tendinite. Aí, eu caí em cima. Daí eu falei: "Vou tomar a Cortisona." E aí foi impressionante, porque aí eu tomei... Eu não estava mais tomando comprimido – porque acontece isso também: o remédio começa a ter que tomar doses cada vez mais fortes. Então, o comprimido não funcionava mais. Eu comecei a tomar Decadron injetável. E aí, eu fui tomar injeção e eu falei: "Chega. Esse papo está errado. Preciso sim da Cortisona. Aí eu fui tomar o Decadron. Tomei num dia e no dia seguinte eu já estava dirigindo e sem a bengala. Falei: "Cara, é tirar com a mão." Maravilhoso. Aí, eu fui equilibrando. Falei: "Pera aí, nem tanto à terra, nem tanto ao mar. Tudo bem. Está errada essa visão de que é só isso, mas também essa de radicalizar, não. Eu preciso tomar quando eu tiver o surto." Aí, eu fui começando a... mas eu é que fui temperando a coisa. P - O tratamento não é contínuo? R - Não. Você só toma quando tem o surto, porque não existe... Agora já tem um, que eu faço, mas quando eu descobri falou: "Não existe tratamento." Só se trata quando tem o surto. Mas aí eu fui buscar o tratamento pra me equilibrar.

Falei: "Claro que tem. Se sou eu que me ataco, bicho, eu estou com algum desequilíbrio. Eu tenho que me conhecer e descobrir onde está isso. Eu fui pra Homeopatia, pra Antroposofia sempre fazendo tratamento de fundo, pra tentar descobrir. "Porque eu estou me atacando?" Meu sistema auto-imune, que ataca meu sistema nervoso, cara. Que viagem. "Aí, eu comecei então... Teve esse primeiro momento radical no qual eu aboli o remédio alopata: "Não, não vou tomar mais." Até esse dia que eu caí no palco e fiquei mal. Foi muito humilhante, você cair no palco. Foi bem humilhante. Fisicamente não me machuquei, mas eu estou um caco moralmente. Andando assim, eu caí. Aí eu comecei a buscar um equilíbrio. "Não, eu preciso do remédio alopático." E esse papo de que quanto mais demora o surto, maior fica a seqüela.

Falei: "Eu preciso. A hora que eu perceber que eu estou em surto, tem que tomar o remédio pra estancar o mais rápido possível, porque depois a seqüela fica menor. P - Existe a impressão de que não está tranqüilo? R - Então. Não existe uma coisa fixa. Quando eu tive essa fase mais radical, de não comer carne, sei lá, fiquei dois anos sem ter surto. Foi o meu maior período sem ter surto. Foi de 91 a 93. Aí, eu tinha uma média de tipo um surto por ano. Mas os médicos sempre falavam: "Olha, você pode ter 10 surtos num ano e você pode ter 20 anos sem surto. A gente não sabe o que desencadeia o surto." Comecei a ter uma média de um por ano. Até em 98 que eu tive quatro num ano. E aí foi quando pintou esse tratamento que agora tem, que é um tratamento de fundo, que é alopata, que eu faço, que é uma injeção que você aplica dia sim, dia não, subcutânea, que é justamente pra que os surtos sejam mais distantes um do outro e quando venham, venham mais brandos. Que é o Interferon. Que é um remédio que eu tomo dia sim dia não. Mas, foi curioso, porque pra mim, na verdade, eu comecei a tomar ele, e foi quando eu tive o ano mais "hard", que eu tive quatro surtos num ano, que foi em 99. Aí, depois desses quatro, eu estou há um ano e meio sem ter surto.

E fazendo esse tratamento de tomar essa aplicação sub cutânea. Que eu mesmo aplico. Mas aí o que aconteceu foi que – isso que eu falei que os remédios começam a não fazer efeito, o Decadron que foi a injeção que eu tomei, que parecia milagre, também começou a não fazer efeito. Aí eu comecei a ter que ir no hospital fazer aquilo que quiseram me fazer na Itália, que era tomar o Solumedrol. Aí, eu fui muitas vezes em hospital, quando eu tinha surto, porque já o Decadron não fazia efeito. E eu tinha que ir no hospital tomar o Solumedrol. Aí, a minha experiência com hospital é completamente oposta dessa que eu tive na Itália. Eu dizia: "Cara, quero casar com uma enfermeira. Como são legais, como é gostoso." Porque eu chego lá, e você tem um tratamento super carinhoso, super... Mas é uma coisa diferente, porque eu vou lá exatamente pra tomar o medicamento, não estou indo lá pra...

Como eu fui lá na Itália, sem saber o que eu tinha. Eu sei o que eu tenho, estou consciente do que eu estou fazendo aqui, sei porque estou tomando remédio, porque que é... P - Você avalia, que num primeiro momento, nem os próprios médicos ainda não tinham um diagnóstico. R - Tinham. P - Eles não tinham feito exames? R - Não, mas pelo meu quadro, o cara,... O Daniele Ribas que foi meu neurologista daqui, ele só pediu pra confirmar com o exame da suposta meningite, porque a sintomatologia é clássica, entendeu. Você perder a sensibilidade... Depois eu fui ler, eu fui ler um monte de coisas. Tudo o que tem de Esclerose Múltipla eu já li. Eu fui buscar. E aí eu percebi que qualquer médico que eu chegasse e falasse: "Estou com dormência na mão, minha perna ficou assim, tenho tantos anos..." Tudo bem que necessariamente não 100% ser isso, mas era um quadro todo muito... Depois que eu fui ler, falei: "O cara lá na Itália sacou o que era." Tudo bem que depois ele fosse fazer exames pra confirmar, mas sabe, está indicado: é isso. Vamos fazer exame, tal, mas é muito típico, entendeu? Embora não se saiba a causa, os sintomas são todos muito claros e muito... O que varia, é onde o surto vai afetar.

Se vai ser na mão, se vai ser na perna, se vai ser na vista. Tem pessoas que sentem dores. Eu não sinto. P - E no teu caso? Pegou a perna, a vista... R - Eu tive vários surtos. A grande maioria, tipo 90% dos surtos foram nas pernas. P - Quando você fala surto, e claro que está acontecendo? R - É, porque você acorda um dia de manhã e diz: "Hum, minha perna está esquisita." Aí você vai andar e você percebe que está estranho pra andar. Aí você fala: "Ih Começou um surto. P - Você percebe qualquer coisa. R - Você percebe. Mas é de uma hora pra outra. Tipo, a visão também. Eu amanheci, acordei e estava com uma barra na minha visão. Se eu focasse essa câmara, eu via as pernas do tripé. Eu via um pouquinho pra baixo de onde eu estava focando. Aí eu fui fazer um teste num lugar que pisca a luz e você aperta um botão e ficou exatamente assim. Tinha uma bola e do meio pra baixo eu enxergava, do meio pra cima não. Mas é de um dia pro outro. Eu acordei e estava assim. Mas já estava diagnosticado que era Esclerose, eu já sabia que era isso.

P - E esses surtos demoram quanto tempo? R - Então, varia. Esse último surto que eu tive... Geralmente eles, no começo, quando eu comecei a ter, em dois ou três dias eu percebia. "É surto mesmo. Não é cansaço. A perna... É surto." Começava a tomar o remédio, três, quatro dias, o surto acabava. Então, durava uma semana. Entre perceber, tomar o remédio. Uma semana. Mas ficava aquela sequelazinha. Aí, com o tempo, o remédio começa a não fazer mais tanto efeito, então em vez de durar uma semana demora 10 dias pra acabar, demora 15 dias, demora 20 dias, demora um mês. Que é quando eu comecei a ir por hospital tomar o Solumedrol. Tipo um mês pra... "Acabou de vez." Até que no ano passado eu tive um surto que durou um ano. Aí eu tive outra experiência em hospital também, que foi a Quimioterapia. Falei: "Nossa cara." Agora quando eu vou no hospital trabalhar com Quimioterapia, já sei o que é. Porque é assim: eu comecei a tomar Solumedrol e não fazia efeito. Foi um surto na perna também.

Tomando Solumedrol e eu falei: "Oh. Continua desse jeito. Continuo com a perna fraca, continuo com ela meio descoordenada, com sensibilidade estranha. Pra guiar está difícil." Comecei a usar bengala de novo, e aí o cara falou:" Então vamos usar um outro medicamento, que eu estou experimentando." Também tem isso na Esclerose. Tudo é muito experimental ainda. Eu sigo com um médico alopata, que não é o mesmo que diagnosticou. É um cara que é o bam bam bam da Esclerose Múltipla no Brasil. Ele falou: "Olha, estou fazendo experiências, não sei ainda o resultado, mas tem dado bom resultado. Que é aplicar a Quimioterapia. Nesses casos em que a Cortisona, o Solumedrol não estão mais dando resultado." Aí, eu fui aplicar a Quimioterapia. E foi um horror. Deu resultado mas, a Quimioterapia é horrível. Eu fui no hospital, ali na Paulista, no Santa Catarina e você chega na sala, bicho, e é aquele monte de gente, a maioria de câncer, já careca, magros....

E você senta lá e veio o meu, era um negócio desse tamanho, sei lá, tipo... amarelo. Você via nos outros caras uns negócios desse tamanho, azul, verde, uma cores.... O meu, durava duas horas a aplicação. Só que foram duas horas tão horríveis, que eu fiquei... Primeiro eu fiquei enjoado, meio mareado e depois com muita ansiedade. Eu levei umas revistas pra ler e não conseguia ler, eu não via a hora de ir embora... Depois o meu médico falou que era efeito colateral da Quimio. E aí, olhava pros negócios enormes daquelas pessoas e falava: "Meu Deus, cara. Vou ficar duas horas e já não estou... Não consigo ler. Imagine essas pessoas com esses negócios, desse tamanho. Vão ficar aqui acho que o dia inteiro tomando isso." Foi um horror.

Aí, quando eu saí de lá, passei uns dois dias mareado, parecendo que saí do barco. P - Fez uma aplicação? R - Fiz uma. Aí eu falei pro médico: "Estou mareado." " É efeito colateral do remédio, você tem aí...." É trágico a questão da grana. "Você tem convênio?" Falei: "Tenho." Então a próxima vez que eu vou ter que te fazer, eu vou fazer de um outro que o mesmo... Mas que custa tipo cinco mil reais. Mas se você tem convênio, tudo bem." Na verdade meu convênio nem pagou. É que eu tinha um seguro saúde, que pagou. Se eu não tivesse, tinha que tomar aquele, que custa 200. Ele falou: "Tem Químio até de 20 mil reais. Eu vou te passar pra uma outra que custa uns cinco mil, mas como é o teu convênio que vai pagar..."E aí, eu tomei essa outra... P - O teu tratamento é baseado no preço. Estava faltando isso também. R - Como eu tinha o convênio eu disse: "Tudo bem. Dá o de cinco mil. Não sou eu que vou pagar." Porque aí, eu tive que fazer uma nova.

Porque melhorou, mas não estava 100%. Aí eu fiz com esse daí e foi maravilhoso. Não tive nada. Não fiquei mareado, fiquei lendo, fiquei tranqüilo. Falei: "Não, realmente aquele dia, a ansiedade não foi piração da minha cabeça. Foi uma coisa química. Foi da Quimioterapia." Eu fiquei um pouco assim. Falei: "Será que foi o ambiente, ver aquelas pessoas, que me deixou..." Ele falou: "Pode ser, mas esse remédio que eu te dei, costuma dar essa ansiedade. P - Só que o tratamento "Quimioterapia" já é um choque pra pessoa. Tem toda uma carga de outras coisas... R - Eu não sei avaliar quanto. P - Isso foi em que ano? R - O da Quimio, foi em 99. Que foi o último surto. Eu fiquei um ano... Foi isso mesmo. Eu tomei várias vezes a Quimioterapia, porque eu tomava, passava um mês e voltava o mesmo sintoma. Então, o surto não tinha sido debelado. Tinha sido só uma coisa de que a Quimio segurou, mas ele voltou. Fiz umas quatro ou cinco vezes a Quimio.

A primeira, que foi essa mais "punk", e as outras todas foram aquela Quimio de cinco mil, que os caras do convênio falavam: " Aí, esse cara está saindo muito caro." Fazia, mas no mês seguinte voltava o surto. P - O que você fala que ficou um ano? Ia e voltava? R - Ficou um ano, porque eu tomava, passava 15 dias que eu tomei a Quimio, os sintomas começavam a voltar. Eu ligava pro médico. "Onde é que é? O mesmo sintoma? Então é aquele surto que não foi debelado. A gente deu uma controlada na inflamação da mielina, mas a hora que passou o efeito do remédio, voltou. Então o surto está lá ainda instalado." E aí então, eu fiquei um ano fazendo isso, e aí finalmente, em julho de 2000, foi quando eu tomei a última Quimio, e depois não voltou mais. Por isso que eu falei que faz um ano e meio. Mas, de junho de 99 a julho de 2000, meio que quase todo mês eu tinha que ir.

Primeiro no Solumedrol, depois quando a gente viu que não dava o Solumedrol, foi pra Quimio. Fiquei amigo da moçada do Santa Catarina. Conhecia todo mundo, as enfermeiras... Já cumprimentava. "Oi Tudo bem?" Conhecia todo mundo. Todo mês eu ia lá. E aí, em junho, julho, foi a última Quimio. Mas, a experiência da Quimio, nesse primeiro dia foi muito "punk", muito forte, meio inesquecível, de falar assim: "Cara, eu pude trocar a Quimio porque eu tenho convênio. Quem não tem?" Bom quem não tem, nem estaria aqui. Nem aqui estaria, mas é muito "punk" isso. Mas, o que foi assim, ao longo do processo, o que foi rolando, foi que eu pude aos poucos ir me apoderando do meu processo de cura. Eu sacando o que é a doença, por que? Onde estão? Com o tempo eu fui sacando. Quais eram os momentos da minha vida nos quais o surto aparecia? Foi um processo que demorou, desde 90 pra cá, onze anos, mas foi um processo de eu ir tomando consciência do que é a coisa.

De eu ir me apoderando do meu processo. Que foi exatamente o oposto do começo. Que começou aquela coisa surreal lá na Itália. E é isso que eu fico sentindo falta de ver no sistema médico. Porque isso foi fundamental pra mim. Eu tenho certeza que eu vou me curar – eu digo me curar não necessariamente acabar com todas as seqüelas. Eu acho que sim, mas não necessariamente. Mas, acabar com os surtos. Não vou ter mais surtos. Mas tudo isso é uma coisa que é de um processo meu. Que eu tenho que desencadear, eu tenho que controlar, eu tenho que estar no comando desse processo. Preciso do médico alopata? Preciso. Eu tenho ele, eu fui nele a semana passada pra pegar as receitas, porque esse remédio que eu tomo, sub cutâneo, é caríssimo, também. Mas aí, o governo do Estado distribui no SUS, mas eu preciso da receita do médico. Então, de três em três meses eu vou no médico pegar as receitas pra pegar no SUS. Então, eu tenho um médico alopata, eu tenho o meu médico homeopata, tinha a minha terapeuta, tenho a Ioga. A Ioga não é só pra Esclerose, mas ela ajuda. Tem uma série de coisas de que eu fui me cercando, mas que eu passei a tomar controle do processo. Isso que eu sinto falta. P - Você comentou que durante esse tempo, você começou a se conhecer, pra ver onde estava a causa da doença. Que períodos que ela atacava mais. Como é que se deu isso? Você descobriu alguma coisa que faz desencadear os surtos?

R - A minha primeira sacada, foi que eram momentos de stress. A minha primeira sacada foi essa. Eu já reparei que são momentos nos quais eu estou vivendo ou desgaste físico ou emocional. Primeiro a minha lá em Londres. Bicho, eu estava trabalhando das oito da manhã às cinco da tarde, num lugar chato, não falava com ninguém, era frio, era tudo cinza. Era um momento de stress físico e também meio emocional. No segundo, quando eu tive em maio, eu tinha namorado uma suíça quando eu fiz o curso de italiano, e a gente. Foi um mês absurdamente intenso. Um moleque de 20 anos, aquela paixão absurda. Ela voltou pra Suíça é claro. Meu, ela voltou pra Suíça, pá. Eu tive um surto absurdo, nas pernas. Então, eu fui identificando. A minha primeira sacada foi essa. Mas depois, eu fui refinando essa busca. Não é toda vez que eu estou stressado que eu tenho surto. E não é todo mundo que tem stress tem surto. Senão o mundo vivia em surto, porque está todo mundo stressado. Aí, você vai buscando refinar e tal.

Aí, minha terapia é fundamental. De você ir buscando. É tão difícil de você relatar isso tentando trocar em miúdos, é que... O risco de trocar em miúdos é você banalizar a coisa, mas enfim, eu vou tentar. Eu estou chegando num ponto, no qual eu acredito que o meu processo de Esclerose Múltipla tem a ver com o eu aprender a lidar com a minha agressividade. Com meus impulsos agressivos. Mas não a agressividade de violência. A agressividade no sentido mais amplo, de iniciativa... É. De iniciativa e de violência também. Estou querendo dizer que não só a agressividade da violência. 10 anos de terapia, e a gente foi chegando a um diagnóstico nesse sentido, que tinha a ver com essa... Mas aí, pra chegar nisso, é uma história muito grande, ao longo de 10 anos de terapia. Por isso que eu falei, eu fiquei com medo de parecer uma coisa banal, mas não é.

P - Quando você fala faz sentido? R - Total. Que essa coisa da agressividade, e que faz sentido do meu sistema auto-imune estar me atacando, que é também uma coisa de uma agressividade meio descontrolada, meio mal resolvida, mal colocada, mal encaminhada. Mas, que não seja isso, a questão, o que eu achei de mais relevante de tudo no processo, é eu sacar que o processo é meu, que isso tudo... Que não é uma... Porque, tem um momento no qual – é um processo muito rico – tem um momento no qual, no começo, você fala assim: "Cara, eu sou vítima. Por que comigo?" Tem uma estatística que diz assim, que em cada 100 mil pessoas uma tem Esclerose Múltipla. Aí então, o que eu fiz? Eu já imaginei o estádio do Morumbi, eu sentado lá, lotado e dizem assim: "uma pessoa neste estádio vai testar um..." " O que ele falou? Uma pessoa? Ta legal. Me vê aí, vou comprar." Não dando bola. "Ta naquele setor." "Setor azul é o meu? Não acredito." E sou eu. Eu fazia esse filme na minha cabeça. "Cara é muito absurdo. É muito azar. Eu sou uma vítima. Eu sou uma vítima do destino. Que mundo cruel, cara. Por que "eu" fui abençoado com essa droga de Esclerose Múltipla." Isso foi no primeiro momento. Aí depois, vai caindo uma ficha. "Pô. Não é isso. Não é uma coisa de fora." Isso também é uma coisa muito da medicina alopata, de que é um agente externo que desencadeia o processo. "Não é agente externo nenhum. Sou eu, cara." Aí depois, você começa...

E hoje, o meu modo de encarar essas coisas, é muito diferente. Eu vejo muito como a luzinha vermelha do óleo, que acende no seu carro. Pra mim, a Esclerose é a luzinha vermelha que eu tenho no painel, dizendo pra mim: " Oh. Dá uma checada aí, que a máquina está te dando esse aviso, mas é porque tem outra coisa." Ela é um sinalizador. Não é a causa última. P - Mas nesse processo em que você deixou de ser a vítima... Você estava falando, que no primeiro momento você se sentiu vítima. Depois, você percebeu que era um problema seu. Nesse momento, você não foi contra você mesmo? Não ser revoltou com você mesmo? R - Na verdade não. Eu acho estranho a gente falar, que as palavras são tão... Esquisito não? Eu quero dizer que... P - Não dão conta. R - É. Por isso que cada vez mais eu acho o máximo poesia. Porque ela não é a palavra. É muito mais do que está na palavra.

Por que: "Ah, num primeiro momento..." Não é exatamente só isso, mas vamos tentar. Estamos falando. Tem que falar com palavras. Na verdade, o primeiro momento... Me corrigindo. No primeiro momento foi: "Não estou nem aí. Amarra o pé na bicicleta e vamos embora." (risos) O segundo momento é que foi: "Opa, pera aí, bicho. É mais grave do que eu pensei. Por que eu? Que droga." E depois é que foi amadurecendo um outro processo de: "Não. Pera aí. É um processo auto-imune. Sou eu." Aí, durante algum tempo, a minha bíblia era um livro que chama: "A Doença como Caminho", um livro muito legal, de um cara, de um alemão, de um médico alemão e um outro. Não lembro o nome do autor. Um europeu também. Foi me levando mais pra essa visão de ver a doença como uma parceira, como uma coisa boa. Sem demagogia. Uma coisa boa no sentido que ela está indicando pra você, pra seu crescimento, que tem alguma coisa em desequilíbrio.

Que você tem que ir buscar. Pra mim, uma coisa que foi muito clara, foi que eu sempre fui cara meio... Meio não. Sempre fui líder. Na classe, na escola, no futebol, o primeiro a ser escolhido, ou o cara que escolhe, e de repente eu passei a ser o cara, último a ser escolhido. O cara... Pior do time. E durante muito tempo, tipo uns dois anos, ainda conseguia jogar e com os meus amigos, tudo bem. Porque eles sabiam que eu estava com algum problema. Sabiam que eu tinha Esclerose Múltipla. Então, tudo bem. Mas, muitas vezes eu ia jogar em lugares nos quais as pessoas não me conheciam. E lá, eu era o Bertoldo, que era o meu colega do primário, que era o cara que era o Zé Mané, o pior do time... "Sai da frente Bertoldo." "Agora, eu sou o Bertoldo." Isso foi muito louco pra eu viver assim. Eu lembro que muitas vezes que eu fui jogar, eu ficava num misto de puto da vida de não estar conseguindo, com auto piedade. " Pô, coitadinho de mim. Olha que merda." Meu olho marejava.

As vezes vinha uma bola e eu chutava o ar. Aí eu saia de cabeça baixa e meu olho marejava. Aí eu falava: "Pera aí, cara, sem auto piedade." Mas vinha. Fazer o que? Vinha. Mas isso foi um aprendizado. Um aprendizado muito legal, porque são situações opostas e eu vivi as duas. Ninguém vive as duas. Ninguém não, mas pouca gente. Ou você é o cara bom do time ou você é o ruim. Você não é o bom e o ruim. Eu fui bom e ruim. Eu comecei a sentir... Lembrei do Bertoldo: "Eu sou Bertoldo hoje cara. Eu chuto o chão. Até com bolas ridículas, que não se pode perder." E os caras me davam bronca. E eu falava: "Eu sou esse cara que está dando bronca." Que falava: "Porra meu..." E eu falava: "Sou eu." Mas na verdade... "Agora eu não sou mais ele, eu sou eu. Eu sou o Bertoldo." Entendeu? Foi uma coisa muito... Enquanto eu estava vivendo, era meio louca, mas conforme o tempo foi passando foi muito legal, porque foi muito enriquecedor pra mim, viver esse outro lado.

E conviver com o limite. Isso é uma coisa que pra mim, eu acho que até eu tenho um jeito – eu nunca tive uma pessoa muito próxima de mim que morreu – mas eu tenho uma sensação que eu tenho um jeito tão saudável de encarar a morte... Saudável no sentido de tranqüilo, que eu acho que muito disso veio desse aprendizado que a Esclerose me trouxe, de conviver com o limite. Porque eu sempre fui um cara meio mimado. Meus pais, sempre super protetores. As professoras me protegiam porque eu era bom aluno... Eu sempre fui protegido, as pessoas gostavam de mim. Tinha uma coisa meio de cara mimado. E de repente esse cara mimado não consegue jogar bola. Os caras do time gritam, e tem razão. Erro ridículo, grotesco, de perna de pau.

E na hora do jogo, você grita mesmo com o perna de pau. Então, eu falava: "Caramba." Minha primeira reação era: "Filho da puta esse cara. Tá certo cara. Olha o que você fez. Olha o erro ridículo que você fez." E aí, são limites que num primeiro momento, quando eu comecei a ver que eu estava jogando mal, eu não aceitei." Imagina cara. Não é possível. E com o tempo você fala: "Eu não corro. Eu não consigo correr." Eu tive que aprender a aceitar isso: "Eu não consigo correr. Não tenho coordenação motora pra correr." Então, isso tudo traz um amadurecimento, que eu acho que ... As vezes parece demagógico, mas eu agradeço a Esclerose, porque me trouxe uma série de... Eu acho que de crescimentos assim, de amadurecimento, de sacadas, de... Por conta disso, porque eu acho que foi essa experiência de ter que conviver com os limites. Limites bem radicais. Pra mim, eu encaro isso como radicais. P - O seu sonho era continuar jogando futebol? R - É porque eu gostava muito. Eu ainda estava na fase de: "Não. Eu quero jogar. Quero brincar. Tudo bem. Estou jogando mal, mas eu vou me divertir, mesmo jogando mal. Aí começou: "Será que eu estou me divertindo?"

Porque as pessoas..."Sou o Zé Mane do time. Sou o Bertoldo do time. Não estou me divertindo tanto assim sendo o Bertoldo." E aí, eu comecei a diminuir. Comecei cada vez jogar menos, até o momento em que eu parei. Na verdade, o momento no qual eu parei definitivo, foi porque realmente... Aí, eu parei de jogar com pessoas que eu não conhecia. Porque eu não estava agüentando mais ser o Zé Mané do time. Porque eu era muito Zé Mané. Conforme o tempo vai passando, o sintoma vai piorando. Aí, você tropeça sozinho e cai. Aí não dá. Comecei a jogar só com os meus amigos, que eram amigos de colegial, que me conheciam, sabiam e tudo o mais. E aceitei o café com leite. E ia catar no gol, e tudo mais. Aí, chegou uma hora que eu não conseguia mais, mesmo porque eu não consigo correr. Então não dava. "Só posso catar no gol. Mas catar no gol também é dose pra leão. Eu gosto de jogar. Tudo bem. Então não jogo mais futebol."Mas hoje eu falo isso.

Se eu pensar que há 10 anos atrás alguém falasse pra mim assim: "Você não vai mais jogar futebol." "Imagine, impossível. Vou bater pé, fazer bico." E o que a Esclerose, eu falei, o que ela me trouxe foi: " Não jogo mais. Não posso mais jogar. Pode ser que um dia eu volte, mas hoje não posso." P - Nesse período, você tinha a consciência de que ia melhorar, ou que aquilo estava piorando? R - No primeiro momento eu nem achava que ia piorar, achava que isso não ia ser um problema. Aí, quando a coisa começou a piorar, o que a medicina sempre me falou assim: "Não tem cura. É daqui pra pior. Só piora, a Esclerose. E cada surto novo que você tem, você incorpora uma nova seqüela. E as seqüelas não são recuperáveis. Então, esquece. Só vai piorar daqui pra frente. Pode ser que você seja um daqueles casos que vai ficar 20 anos sem ter surto, mas..." Tanto é que, toda vez que eu ia ao médico, no Neurologista – agora eu já lido melhor – mas era "punk" porque chega gente com andador, muita gente com andador, gente com cadeira de rodas.

Então, você está lá sentado e você vê o cara e diz: "Eu já..." P - Conversas com esse jargão, não? R - Porque lá nesse médico que eu vou, 90% é Esclerose Múltipla. Então, chega gente de andador. Aí eu falo: "Eu não estou de andador hoje, mas também eu não era o Bertoldo,cara " Então dá um ... No primeiro momento eu tinha talvez essa aflição. Dava um frio na barriga. Eu detestava ir no médico de três em três meses pra pegar a receita, porque era ver uma coisa e falar: "Caramba. Olha os caras de andador, bicho. Cara de cadeira de rodas. Não. Isso não." Ficava uma coisa meio assim... P - Você estava se vendo daqui a algum tempo. R - É. Quando eu falava: "Isso não vai acontecer. Bom, mas eu nunca imaginei que eu fosse jogar tão mal como o Bertoldo. E cheguei a jogar. Então, pode ser que isso vá acontecer." E a medicina alopata, sempre...

A perspectiva que ela te dá é essa: "Não tem cura. Fica tranqüilo que está tendo um monte de pesquisas e pode ser que mais pra frente se descubra, mas hoje não tem." Igual ao cara que quebra a coluna. Acabou. Não vai andar nunca mais. Acabou. Mielina não se reconstitui. Mas aí, eu mesmo, lendo e fazendo meus tratamentos, falei: "O que não reconstitui coisa nenhuma. Eu era uma célula e virei isso aqui. Claro que reconstitui. A gente não sabe. Eles não sabem o que causa a Esclerose e ela existe. Eles não conhecem a cura, mas ela existe. Tenho certeza que existe. Absoluta." E não é uma coisa de... E quando a gente fala isso, eu sinto que tem um pouco do clima de... "Da fé dos desesperados." E não é. Eu tenho noção disso, entendeu? De que a gente tem 10% do nosso cérebro que a gente conhece. E o resto?

E se a gente consegue, de uma célula virar desse tamanho – tudo bem que é toda uma programação que já está lá – mas deve ter... Deve ter não. Tem algum modo de ou reconstituir ou então o cérebro descobrir um outro caminho pra mandar a mensagem. Alguma coisa assim. Eu sei que eu vou conseguir. E eu já estou tendo melhoras mesmo, tipo... E isso ficou muito claro pra mim na Ioga, porque tinha muitas posturas que num primeiro momento eram impossíveis, porque eu perco o equilíbrio. Eu perdi muito do meu equilíbrio, porque como perde a sensibilidade nos pés, e eu perdi muito nos pés, o equilíbrio fica comprometido. Então quando eu fecho o olho, é um desastre. Então tem um "afa", uma postura na Ioga, que é super básica, que é você ficar em pé, com os dois pés juntos, com a mão aqui, fechar o olho e ficar em equilíbrio, parado. Pô, mas eu fechava o olho e começava a balançar. Não conseguia ficar. Isso no começo. Agora, um ano, eu já fico. Já consigo ficar.

Então, tem uma melhora que não necessariamente está ligada a uma regeneração do sistema nervoso, mas tem uma melhora que eu já percebi que ela é plausível. E isso a medicina alopática também prevê porque eles dizem que você tem que fazer Fisioterapia, que a Fisioterapia pode estar te ajudando, embora não seja uma deficiência na musculatura da perna, mas que com a Fisioterapia você pode estar acionando outras cadeias musculares que não as que você usualmente usaria, mas que você acionando ela, você supre a deficiência de uma outra, e tudo mais. Então, eu percebo que tem isso. Mas, mais do que essa coisa que eu estou percebendo que melhora, e que a medicina alopata também reconhece, eu tenho certeza que é possível se reconstituir a mielina, ou se não é reconstituir é criar um outro caminho, e estancar o surto. Tanto é que eu... até comentei com a Élida "Esse último que eu tive agora, cara, foi o último.

Não vou ter mais." E eu gosto sim. Sempre gostei disso. Aí você começa também a fantasiar um pouco. Sou muito... A gente é um pouco megalomaníaco. Então eu já fico fantasiando que eu... "Eu quero guardar os meus exames, - que tem um exame que a gente faz, que é a ressonância magnética pra mapear onde é que estão os pontos no cérebro, que estão lesados. Falei: "Eu quero guardar isso, pra daqui a não sei quantos anos, quando eu fizer de novo, não ter mais isso. Quero documentar. Pra eu mostrar que não tem mais." Aí eu guardo, porque eu vou documentar, porque só eu falar, não adianta. Pro mundo científico positivista, tem que ter o dado concreto. Não adianta eu falar. Eu quero poder mostrar e falar: "Olha isso aqui era a minha ressonância e essa aqui é a minha nova ressonância." OH (risos) Eu quero fazer isso. E já aconteceu. Já aconteceu. O médico ainda acha que é da Quimioterapia, mas eu tenho certeza que não é. Sou eu que estou já começando... Em 98 ele pediu uma ressonância, aí eu tive esse um ano de surto que demorou, e quando acabou esse um ano, ele pediu pra eu fazer uma nova, que eu fiz... Acho que foi no começo desse ano, que eu fiz. Aí falei: " Bom, a lógica é que venha com mais cicatrizes, porque eu tive um ano de surto." E aí quando veio esse exame, veio o comentário. Porque as fotos eu não consigo entender, porque também o médico alopata, ele bota o negócio ali e fica olhando pra aquilo, ele troca....

"Hei. Eu estou aqui. O que você está vendo? Me diz o que é?" Porque o dia que eu levei, ele bota lá e fala ham, ham ham, tira e bota outra. "Dr.Roberto, o que o senhor está vendo?" Tem que pedir pro cara, porque o cara não fala. Mas vem a coisa escrita. E o que veio no relatório escrito foi que não tinham se alterado as lesões no cérebro, a quantidade de lesões tinha continuado a mesma, só três ou quatro – que eles indicavam as posições – que tinham diminuído. A lesão. Eu disse: "Ta vendo, cara. Eu tive um ano de surto. Eu era pra estar com mais lesões. Porque ficou um ano de surto. Então, essa diminuição que eles estão apontando, ainda foi maior, eu tenho certeza, depois de um ano de surto." P - Ou seja, uma regeneração? R - Eles não colocam uma regeneração. Dizem que diminuíram. Porque aí, o médico, quando eu levei isso pra ele, o que ele fala? Fala o seguinte: "Muitas vezes, você já saiu do surto, mas ainda tem uma pequena inflamação. Então o que você sente, você assume como sendo seqüela, não é seqüela. É uma inflamação residual. Então essa melhora que você está tendo, que aparece no exame, não é que você regenerou, porque isso não regenera mesmo. É que você tinha, provavelmente uma inflamação residual, que agora não tem mais." É a explicação que ele dá.

Mas a explicação que eu dou não é que eu estou realmente me curando. Porque eu tive um ano de surto, cara. Era pra estar com mais cicatrizes. Porque ele mostrou também, depois que eu perguntei pra ele o que ele estava vendo, ele mostra: "Está vendo esses pontos brancos? São as cicatrizes de onde você teve a inflamação." P - E você acha que esse processo vem de você possuir auto conhecimento, de você ter uma outra relação com você? R - Com certeza, porque é isso que eu falei: Eu comecei a ver a doença, os problemas que a gente tem de doença, como sendo a expressão de um desequilíbrio interno teu, que vai muito mais além da questão dos sintomas. E aí quando eu vejo o sintoma melhorando, isso é também expressão de uma outra coisa interior que também está se harmonizando mais. Você está se conhecendo. Mas, isso tudo acabou me levando - se eu já tinha uma tendência meio introspectiva, aumentou. Hoje, eu me vejo um cara muito diferente do que eu era quando era adolescente. Eu sempre fui super falante – sou ainda, mas porque eu estou falando de mim.

Nos lugares, eu sempre fui um cara muito falante. Hoje eu sou um cara muito mais ameno, muito mais retraído, mas não é de mau humor, é que acabei desenvolvendo uma coisa mais introspectiva, mais... Até por tanto tempo fazendo terapia, pelos limites que a Esclerose me colocou, acabei voltando o olhar as mais pra dentro. Não que esse seja o caminho."Tem que ficar introspectivo." Não é isso, mas é que acabou sendo uma decorrência. A partir do momento que eu diagnostiquei que era uma questão de um desequilíbrio interior meu, uma questão interna, então eu comecei a procurar onde é que estava isso. Com terapia... Eu acho que isso tudo também já estava... Eu já tinha um pouco esse pendor pra introspecção. Isso que eu falei também, que eu sempre tinha esse jeito de olhar pras coisas, buscando a raiz, o pra que, que isso as vezes faz você ser um cara chato, entendeu?

Outra coisa também que eu acho que foi muito em função da Esclerose, que é uma coisa de auto aceitação, porque a partir do momento que você vai desenvolvendo esse processo de auto conhecimento, uma das coisas mais, não sei se difíceis, mas que estão sendo mais legais pra mim, é o processo de auto aceitação, que vem muito ligado com o auto conhecimento. Não sei porque eu comecei a falar da auto aceitação? P - Você faz uma auto aceitação, porque hoje você aceita como você é? R - Ah. Lembrei porque. Por causa disso. Eu sou ator, cara. Eu preciso do meu corpo. Eu trabalho no teatro. Se eu tiver que correr em cena, não corro. Se eu precisar de precisão... A última peça que eu fiz, fiz um bêbado. Disse: "Pô, daqui a pouco eu vou ser especialista em personagem de bêbado." Porque conforme o cansaço vai vindo, e a perna vai ficando mais fraca, eu caminho como se estivesse bêbado mesmo. Então, você fala: "Cara, não vou poder fazer minha profissão. Antes tinha meu hobby que era futebol. Agora nessa profissão que é ator, o que eu vou fazer?" E aí você fala: "Pera aí, cara. A coisa é mais simples.

Você pode trabalhar desse jeito." Minha primeira experiência disso foi nessa peça que eu falei que eu fiz um alcoólatra. Porque eu vivi um pouco essa questão. "Pera aí, bicho. Do mesmo jeito que eu parei de jogar futebol, pode ser que eu tenha que parar de fazer teatro. Mas depois... aí que eu puxei o gancho da auto-aceitação." Porque eu não posso ser um palhaço. Porque eu não posso brincar com a minha dificuldade, com o meu limite. Eu sou palhaço cara." Talvez realmente o trabalho de ator, que não é ligado ao palhaço, fique bem limitado, por causa da limitação física. P - Então você procurou alguma coisa que te encaixasse. R - Que me encaixe. E eu percebi que o que mais eu tinha que fazer é palhaço. E porque o meu palhaço não pode brincar com os meus limites? Claro que pode. E isso acho que tem a ver com a auto aceitação. "Ai, caramba, ta vendo? Não vou poder nem mais ser ator." Como é que pode, cara? Só que você não vai ser um ator de teatro físico, mas trabalha com o que você tem, cara. Ainda mais como palhaço. O palhaço trabalha com os limites, trabalha com os ridículos... Olha quantos limites, quanto ridículo. Um prato cheio. P - Sua escolha foi ser um palhaço em outra trajetória. Não tem nada a ver com isso?

R - Não. Não tem nada a ver. A minha escolha pelo palhaço foi... Eu conheci a linguagem do palhaço, trabalhando com a Kito no IAD. Eu lembro que quando acabou eu falei: "É isso o que eu quero fazer. Gostei muito." E eu sempre, na minha adolescência, eu sempre fui um cara muito crítico, mas não crítico comigo mesmo, não crítico ácido... Ácido sim, mas um crítico de tirar sarro. Eu sempre tirei sarro de mim, sempre. Eu acho que isso é perfeito pra um palhaço. Só que tem que ser de um modo saudável. Aí que entra a auto aceitação, entendeu? Quando você não tem esse lance de auto aceitação no trabalhar, essa coisa de você estar sempre se criticando, pode ficar uma coisa sarcástica, auto destrutiva, que fica se apontando... E o palhaço não, cara.

Acho que tem essa coisa crítica, essa coisa de tirar sarro de si, mas com bom humor e não com: "Por que você não faz direito essa droga, cara? Por que você não é o melhor em campo?" Isso é uma coisa mais... É auto crítica, é crítica, não é com você mesmo, mas muito aguda. E a do riso é aceitar. Falar: "Que engraçado, cara. Olha como eu ando atrapalhado. Oi que gozado que pode ser esse meu atrapalhado no andar." Por isso estou chegando nessa auto aceitação. Que é uma coisa que eu percebo que é um processo que eu estou vivendo. Porque eu vivia muito esse dilema: "Como é que eu vou trabalhar no teatro? P - Como você é quando se trata pelo sistema tradicional? Você chegou a começar a falar... R - Eu acho ele assim... Isso que eu falei. Eu uso ele. Eu tenho um médico alopata e uso remédio alopata.

Mas eu coordeno o que eu vou tomar, o que eu quero tomar, e eu vou nele porque eu quero, porque eu acho que eu preciso, porque quando eu tive surto e não tomei, me fez mal. Mas, ele não está me curando. Ele é importante pra isso. Isso é que eu acho que é fundamental pra um processo de cura. Você ser o dono do teu processo. Você ser a pessoa que tem consciência do que você tem, do que você precisa e ir buscar tudo: alopata, homeopata, antroposófico, xamã, o que você quiser, o que você achar que vai ser bom. E o que eu acho que a medicina alopata faz, é exatamente o oposto disso. Você tem: uma letra do médico que ninguém entende. Ninguém consegue ler letra de médico. É só entre ele e o cara da farmácia, que é um cara habilitado a ler aquilo. O cara bota exame e ele não fala com você.

É o oposto do que eu aprendi na minha experiência, que é um processo que leva ao processo de cura. É uma coisa que o cara tem que saber, ele conhece, só que eles se falam em jargões que ninguém mais conhece, eles tem que usar uma túnica branca pra distinguir do resto... Cria toda uma coisa que é exatamente o que eu acho que é o oposto do processo de cura. Te alija do processo, te interna sem falar o que você tem, porque trata como se fosse uma questão externa. "Tá com problema? Tira fora. Extrai." "Como extrai? Se não está aí, vai aparecer noutro lugar. Eu acho que ela é falida. Isso não quer dizer que ela não tenha contribuições. Eu uso, Pô. Se não fosse a Quimioterapia, eu estaria em surto até hoje. É ótimo. Então, tem coisas muito positivas. P - Essa consciência de dizer: Tem um sistema que não incentiva, não favorece... R - De modo nenhum. Não só não incentiva e não favorece, como proíbe, como desestimula, impossibilita. Impossibilita.

O médico não fala com você, cara. E não é não falar, bater papo. Não é bater papo. É ter o paciente assim: "Você é o responsável pela sua cura, meu amigo. Vou te ajudar. Eu vou te amparar." Tem um monte de coisas químicas que podem te ajudar, você pode tomar, mas a cura é sua. Você é que tem que tomar posse dela. Você é que tem que entender o que está acontecendo com você, e nós estamos aqui pra te dar... Tem ferramentas muito legais que você não conhece, e como é minha especialidade, eu conheço. Usar essa aqui... O que você acha dessa aqui, cara. Mas não é assim. Ele nem fala o que você tem. Você vai no médico e ele não fala. "Toma tal remédio." "Pra que eu estou tomando esse remédio? Por que você está me dando ele? Pra que ele serve?" P - É um sistema que não favorece isso... No teu caso, o que favoreceu isso? A sua história de vida? A própria doença? Você poderia ter escolhido um outro caminho.

Você escolheu... R - Foi uma busca minha. Eu sempre, desde moleque, desde criança, eu sempre falava assim: "Eu adoro... – eu sempre brinco. Eu sou corintiano, brasileiro e ator e professor (eu era professor)." Eu adoro ganhar as coisas de virada. Eu sempre gostei. Sempre falava isso: "Ganhar de virada é a coisa mais gostosa que tem." Eu sempre gosto desses desafios. Então, quando eu comecei a ver que:" Não, pera aí bicho. A coisa é mais grave do que o cara falou. Ali não vai me resolver. Eu quero outras coisas." Eu comecei a procurar outras coisas. Foi quando eu comecei... Quando começou a cair a ficha pra mim, que as limitações físicas que eu ia ter eram muito maiores do que eu tinha previsto, do que o cara tinha me alertado, e eu saquei que ali não ia ter... O cara falou pra mim: "Não tem cura, não tem o que fazer," eu falei: "Não. Eu quero outra coisa."

Aí eu comecei a procura. Com essa coisa que eu falei, de querer ganhar de virada, é de não querer aceitar. "Como não tem cura? Deve ter. Como não tem cura? Tem que ter. Não é possível". P - Aquilo que você falou da sua agressividade. Você acabou pegando a sua agressividade pra consertar o problema. R - Esse ímpeto de querer resolver é o lado da agressividade que eu falei, que não está no lance da violência. Com certeza é uma coisa ligada à agressividade, que é esse ímpeto, essa atitude aguda, masculina. E aí, eu acabei indo buscar outras coisas porque, por ser uma doença que a alopatia trata como incurável, eu falei: "Não, não é possível. Eu quero procurar outra coisa. Eu não vou ficar sem jogar futebol. Eu vou procurar outro médico, então. Vou procurar outra medicina." E comecei a procurar. Foi isso que me levou a isso. E a terapia, com certeza. Foi um processo longo, de você ir buscar. Durante muito tempo eu vi a doença como uma coisa externa, como uma maldição. "Ah. Por que eu?"

É um processo muito gradual de você ir incorporando, ir sacando. "Não, não é exatamente assim. Sou eu. Não é a Esclerose Múltipla. Sou eu. É uma manifestação minha, de um desequilíbrio meu, de uma questão que eu tenho que aprender a lidar com ela, que eu tenho que resolver, que vai possibilitar um crescimento meu." Por isso que eu falei que parece demagogia, quando eu falo assim: "Eu agradeço a Esclerose Múltipla." É por causa disso. Acho que ela é um sintoma que aparece e que me possibilita supera-lo. E essa superação com certeza é crescimento. Sem dúvida. P - A sua família, como é que via esse processo? R - Também passou por mudanças como eu, agora. Num primeiro momento, também eu acho que não tinha caído muito a ficha pra eles. Eu imagino. Não sei. E depois, por eu logo de início, quando eu voltei da Europa e comecei a procurar uma outra medicina, quando eu tive aquele diagnóstico que eu mesmo fiz, que eu falei: "Ah. Momentos de stress."

Então eu senti que rolou uma atitude de: "Não vamos então ficar muito em cima do Nando. Não vamos, porque se é stress...." Isso as vezes enche o saco. "Não, não é exatamente ... não é assim. Não vamos ficar muito em cima disso, falando disso com ele. Como é que você está? Você está bom? Ta legal? O Nando reclamou? Quando ele vem com aquele assunto, fala pra ele acionar o médico." Foi uma postura que eu acho que eles... Eu chuto. Que eles acharam que ficar muito em cima, ia ser stressante. Porque eu senti que quando eu tive esse papo com eles, que eu comentei que eu tinha sacado que eram momentos de stress, eu senti que teve uma mudança. Porque num primeiro instante era muito de ficar: "Como é que você está? Você está bem?" E aí, quando eu tive esse papo de que era stress, eu senti que eles meio que se retiraram e ficaram mais... Eu sinto que tem até um pouco de admiração: "Pô, como o Nando trabalha legal com isso. Por que o cara tem uma série de limitações, mas o cara continua numa boa, alegre, palhaço, brincalhão. Não foi um cara que deprimiu." Eu cruzo tanta gente mal.

Quando eu vou tomar o Solumedrol, então vira e mexe tem gente de Esclerose Múltipla lá. E sempre pessoas pra baixo. Desiludidas. P - E depois do lance com a sua família, durante todo esse processo de sua doença você casou, você teve amigos com quem jogou até futebol. Num primeiro momento você deixou de jogar com desconhecidos. Como é que foi essa convivência na sociedade, de limitações... E ainda encontra com a sua mulher... R - Então, é uma doença que ninguém sabe. As pessoas me vêm na rua e acham que eu sou trapalhão, que eu tenho um jeito... Que eu tenho a perna dura. O cara não sabe que eu tenho Esclerose Múltipla. Então, eu não tenho muito um feedback de como a sociedade vê o paciente... Existem associações de Esclerose Múltipla. Eu não vou, não participo, porque eu não gosto. Meu primeiro afastamento foi porque eu vi um monte de caras com andador. Falei: "Não quero. Não quero ficar vendo isso." E depois porque é uma coisa muito... De ficar, de formar gueto em torno da coisa. Eu não gosto.

Então não entro, não participo. Eu não tenho muito esse feedback de como a sociedade vê. Porque não é uma coisa como um paraplégico. O cara não sabe que eu tenho Esclerose Múltipla. Se eu não falar, ninguém sabe. P - Mesmo as pessoas que convivem, que souberam desse... Não teve um primeiro momento de: "Ah... vamos..." Sentiram uma certa pena de você? R - Então. Eu, durante muito tempo ficava com esse papo de não querer ser o café com leite como eu falei, não contava pra ninguém. Mas era muito mais uma projeção minha. Era pena minha que eu projetava no outro. Ninguém tinha pena de mim. A gente jogava bola e eles falavam: "Vamos jogar Bologna. Vamos jogar, cara. Vamos aí." Ninguém nunca teve uma atitude dessa de café com leite. Acho que era muito mais uma projeção minha, de eu me colocar, de eu ter pena de mim. Porque eu sinto que... Durante muito tempo tinha essa coisa de: "Porra cara. Não consigo jogar bola.

Coisa que eu mais gosto de fazer na vida, cara." Ficava, isso que eu falei de: "Pô. Estou jogando." Várias vezes aconteceu de eu num momento do jogo fazer uma coisa ridícula, dar um tropeção e cair, tentar dar um passe que eu sempre daria com facilidade, e a bola sair pra lateral. E eu abaixar o olho e dar a maior bandeira. Ficar com dó. Que eu acho que é normal. P - Seus amigos não? R - Não. Em nenhum momento. Por isso que eu falei que eu acho que essa coisa de achar que as pessoas tinham dó de mim, era muito mais uma projeção minha. Da minha dó no outro. Que até também eu acho que é normal. Que em um determinado momento eu tenha ficado assim: "Pô, que merda." De ter ficado chateado, lacrimejado, ficar um pouco bravo. Normal. Mas o que eu acho legal é que eu não fiquei alimentando isso.

Nessa onda de: "Ah. Pobrezinho, coitado de você. Você é uma vítima." Porque se eu fosse por aí, eu não ia ter muito... P - Como é que você conheceu os Doutores? Tem a ver com a sua história? R - Eu acho que tem. Tem muito a ver sim. Primeiro com a linguagem do palhaço, que é quando eu fiz esse curso com a Kito que eu falei: "É isso que eu quero fazer da minha vida. Quero ser palhaço. Eu acho que eu tenho talento pra isso. Eu acho que eu posso ser um bom palhaço." E também tem a ver com o meu processo de cura, dessa coisa de trabalhar com limites, como eu falei, que pode ser risível, que pode ser engraçado. Trabalhar de um modo saudável com isso e não "Ah. Que droga. Não consigo." Absurdo. Você tropeça... Trabalhar com isso. E aí tem também uma coisa que sai um pouco disso que era... Eu sempre tive uma vontade de... ou quando eu era um marxista revolucionário, sempre eu tive vontade de mudar o mundo, de melhorar a vida das pessoas. "Como é que pode.

Os caras queimarem arroz e a gente passando fome, cara." E aí com o tempo, a coisa foi mudando e eu falei: " Não preciso mudar o mundo. Posso estar ajudando um cara ali, posso estar ajudando outro acolá. E aí até uma discussão que eu tenho com os Doutores, dessa coisa assim: "Nós não temos que nos preocupar com os efeitos do nosso trabalho." Eu me preocupo muito. Eu penso muito nisso e isso pra mim é... Não é fundamental, mas é muito importante. Eu acho o máximo eu poder saber que eu estou fazendo aquela criança rir, que está sendo divertido, e que esse riso, que essa alegria que eu estou trazendo, vai estar trazendo uma série de benefícios fisiológicos, orgânicos. Eu acho isso o máximo. E veio num momento em que eu estava experimentando uma sensação – parece piegas, mas fazer o que – de sentir um amor pelas pessoas de um modo geral.

Gostar das pessoas. Curtir. Olhar as pessoas na rua e falar: " Pô, que cara legal." " Puxa, quanta gente bacana. Esse cara deve ter um monte de histórias, esse cara deve ter... A primeira namorada... Olhar as pessoas e gostar das pessoas. E aí eu falei: "Pô, é legal. Um sentimento gostoso de ter" Falar: "Entendo aqueles papos que você ouve ali, de amar..." E esse sentimento de um amor mais... Não só do amor pra tua mulher, pro teu pai, pro teu irmão, das pessoas mais próximas. Sentimento de amor mais universal, mais incondicional. P - Gostar por gostar. R - É. Gostar das pessoas. Reconhecer nas pessoas um...(as palavras são...) um irmão. Falar assim: "Sabe o cara da frente que você xinga? Se fosse meu irmão, o Beto meu irmão, eu não ia xingar. Eu ia falar:" Pô. Você pisou na bola, cara. Entrou sem enxergar. Sem nem olhar a bola." E não xingar: " Aí seu filho da puta" E eu comecei a sentir isso com as pessoas, independente de ser o Beto.

O cara passar e em vez de você xingar, falar: " O cara está distraído. Tudo bem." Entende. Ter um sentimento mais amoroso com relação ao mundo. E isso também eu acho que tem a ver com a minha vontade de trabalhar nos Doutores, porque é um trabalho super humano. Que é estar entrando em contato com as pessoas. Um contato tão... E que a gente é recebido com tanto carinho. Todo mundo que recebe a gente, recebe com um puta sorriso. "Ah. Que legal que vocês vieram." E você sentir que você está ajudando as pessoas, que você está contribuindo pra melhorar. Tudo bem que o cara só com bronca que a gente vai embora. Mas aqueles 10 minutos que eu estive lá, foi legal pro cara.

Foi bom. Ele riu. Ele estava meio chorando lá. Não está mais. Está rindo. Isso é gostoso. E eu tinha essa noção. Eu nunca tinha trabalhado, mas eu tinha essa noção. Conhecia o César, que trabalhava, e eu já tinha lido. Eu tinha essa sensação de que esse trabalho era um trabalho que era reconfortante nesse sentido. Tudo bem, não vou fazer revolução comunista, acabar com a miséria do mundo. Eu vou levar alegria pro cara que está lá mal, que está lá triste, de saco cheio. Eu vou chegar lá e vai ser alegria pro cara. Legal. Num fui um Fidel Castro que fiz a minha revolução em Cuba, mas, levei lá pro Cândido Fontoura, terça e quinta, tem 40 crianças que passam meia hora mais alegrezinhas. Legal. Isso estou vendo que tem a ver com essa minha vontade de estar interferindo no mundo pra melhorar as coisas. Aos poucos eu fui... Isso tudo, está tudo ligado.

Acho que tem a ver com os limites. "Você não vai mudar o mundo, cara." "Ah. Mas eu posso levar alegria pro cara que está lá no hospital. Ta bom." É uma coisa que já está ao meu alcance e tem a ver com a minha opção profissional de ser... Juntava um pouco as coisas. Meio que fechava um quebra cabeça. "Eu quero ser palhaço, quero mudar o mundo, quero melhorar a vida das pessoas, quero que as pessoas sejam mais felizes. E quero ser ator e quero ser palhaço." Isso eu reuni tudo junto nos Doutores. Não que se encerre lá, mas é um lugar em que quase tudo rola. Eu estou ajudando as pessoas a serem mais felizes, estou desenvolvendo meu trabalho de palhaço e foi meio que... a grana também. Pô. É um lugar em que eu vou ter salário. Nunca tive salário na minha vida.

Tive quando era professor, mas isso nem conta. Então, isso tudo foi somando. E a possibilidade de eu estar duas vezes por semana exercitando a linguagem do palhaço. Antes de eu estar nos Doutores, eu sempre curtia o palhaço, mas, estou num espetáculo de Clow. Acabou esse espetáculo, vou fazer um outro que não é de clow. Fico seis meses sem exercitar meu palhaço. Então, nos Doutores... Eu estava fazendo um outro espetáculo agora, o qual não era um espetáculo de palhaço, mas duas vezes por semana eu estava testando o meu palhaço. Isso era uma coisa que me atraia bastante no trabalho. Eu estar exercitando uma coisa que eu quero desenvolver. P - O que você falaria sobre a doença? R - Começaria falando assim: Não é verdade que não tem cura.

Não é verdade. Tem cura. A doença não existe? Existe. Eles sabem como começa? Não. Então. Eles não sabem como desencadeia a cura, mas existe. Primeira coisa. Então tire isso de sua cabeça. Segunda: isso que eu estou falando. Vai buscar outras coisas. É uma doença auto-imune, cara. É uma coisa que o processo de cura vai depender de você, vai depender da sua... Se você ficar só nessa onda de: Toma Quimioterapia, pra la la.... Talvez você não vá avançar muito. Talvez avance, não sei. Eu estou dizendo a minha história. Pra mim o processo não foi por aí. Mas, a primeira coisa é dizer assim: "É mentira que não existe cura. Eles não conhecem. É diferente de não existir. Não conhecer não é não existir. Isso é muita prepotência. "Eu não conheço, então não existe."

"Que é? Você é Deus?" Eles não conhecem. Só isso. E é uma coisa que eu acho que o processo de cura é um processo que você tem que ser o gerente dele. Não entrega pra ninguém. Não entrega na mão do médico. Não entrega na mão do padre. Não entrega pra ninguém. É teu cara. E isso é que tem muito a ver com o papo de espiritualidade. Você começa a ler, começa a ler sobre religiões, e em todo lugar você encontra a mesma coisa: esse papo de que Deus está dentro de você, coisa assim. Você começa... Eu comecei a ler várias coisas e no fundo eu comecei a ver que: "Meu, eles falam a mesma coisa." As religiões falam a mesma coisa, com palavras um pouco diferente, com imagens, com deuses, com crenças, mas no fundo um pouco... A minha percepção delas é que todas elas levam pra essa mesma... P - Com nomes diferentes, como você falou. Na primeira pergunta que eu fiz hoje a respeito de religião, e que você falou; "Não consigo nomear." R - Com certeza.

Não tem nome nenhum. Não tenho nenhuma religião institucionalizada que eu faça parte, mas eu sou um cara profundamente religioso. Eu me sinto um cara religioso. Eu tenho o altar, eu tenho momentos nos quais eu faço conexão com alguma outra coisa que eu não sei exatamente o que é. Que não é necessariamente o momento no qual você está na igreja. É na hora do gol, que você grita. Ali é o momento que você está com Deus, cara. Você está todo feliz, está tão pleno cara, tão Ah, que é o momento do religar. Você está ligado com tudo. Até com todo estádio. Você está num momento de tanta alegria... Quando você está transando, cara, e você goza... São vários momentos nos quais você sente que você está ligado de novo numa outra coisa mais, que transcende o seu ego, que transcende o Nando ali. É maior. É mais amplo. É mais Ah Que é o princípio da religião, de você se ligar a um todo que você perdeu.

A perda do paraíso, tudo mais, pra mim é isso. Eu entendo que a perda do paraíso é um momento no qual você vira uma pessoa. Nando. Com os meus pais, o lugar em que eu nasci, com a idade que eu tenho, com o corpo que eu tenho. Essa identidade. Isso aí, eu acho que todos os mitos, de você encontrar o paraíso perdido, reencontrar... Redenção, e tudo o mais. Pra mim é isso. Você de novo se integrar. Se liberar do Ego e fazer parte de uma coisa maior, que você está dentro dela. Eu falaria isso. Que não acredite que não tem cura. Que não é verdade. A gente pode tudo. Com certeza a gente pode tudo. Não entregue o seu processo de cura pra ninguém, cara. Eu daria pra ele ler o livro que durante muito tempo era um livro que ficou na minha cabeceira, que eu li e reli várias vezes, que é "A Doença como Caminho", que fala exatamente isso.

A doença não é um entrave na sua vida. Não é um entrave na sua vida. Ela é um parceiro teu, que está te sinalizando: "Hei. Presta atenção cara. Alguma coisa não está boa." E aí você vai buscar. Se você acreditar que sua vida é um processo de auto conhecimento, de crescimento, de cada dia você quer ser melhor do que no dia anterior. Não melhor no sentido de correr mais rápido. Melhor no sentido de ser uma pessoa mais equilibrada. Se você acha isso – e eu acho – a doença é um parceiro mesmo. Ela sinaliza. P - Ela te possibilita atenção nas coisas. R - Te impõe uma série de coisas, que se você conseguir incorporar de um modo saudável, é um crescimento. Ela te propicia crescimento. P - E como é que é pensar no futuro Nando? R - Então. É gozado isso. Porque eu sempre... A Élida está falando: "Tem que primeiro ter filho." Porque eu sempre já fico me vendo avô. Sempre me vejo velhinho.

Sempre acho que eu vou ser um velho legal, (risos) que eu vou ser um avô legal. Eu sempre projeto essa coisa. Eu sempre me vejo velhinho, com netos. Antes de eu casar. "Imagine nossos netos" "Você nem tem filho. Ta imaginando neto" Eu tenho isso. P - Filho dá muito trabalho.(risos) R - Neto já sai... Mas isso é uma coisa muito assim, que na verdade, não é que eu fico bolando como é que eu vou ser, como é que vai chamar... Não é isso. Só é uma coisa de fantasia. Mas o que eu vejo é um futuro muito próximo em que eu fico vislumbrando os meus próximos espetáculos, o que eu quero fazer. Eu não tenho muito uma meta que eu quero atingir: "Eu quero ter 50 anos e ter conquistado isso, aquilo, aquele outro." Não tenho muito isso. Tenho o meu próximo espetáculo que eu quero fazer. Estou desenvolvendo meu trabalho de palhaço. Agora o meu próximo desafio é aprender malabaris. Então eu estou com os limões lá em casa, fazendo malabaris.

São coisas meio... P - São mais do presente. R - É. É. É. Até é assim: uma coisa que meu pai fica desesperado: "Nando, você não tem salário. Agora tem dos Doutores, mas não te garante. Você tem que fazer um prevê. Tem que fazer um plano de previdência." E eu não tenho muito isso. Com tudo de bom disso e tudo de ruim. Tem umas coisas que são ruins. P - E como é que... Essa parte de salário, de ganho. Como é que você administra a doença, com isso, porque há pouco você falou davam um cardápio pra escolher o tratamento: tratamento de 200 reais, de 5 mil reais. Você passou por essa experiência de valores de tratamento. Você disse que não tem salário, não se preocupa muito com isso. Como é que você administra isso? R - Não é propriamente que eu não me preocupo. Não é que eu sou um cara: "Não estou nem aí. A grana vai pintar." Não é exatamente isso.

Mas, eu tenho um salário dos Doutores, que não supre as minhas necessidades e da Élida, mas é uma coisa fixa, que há um ano atrás eu não tinha. E sempre as coisas pintam. Eu sou um cara otimista. Eu sou corinthiano. Se eu não fosse otimista acho que eu mudava de time. (risos) Eu sou otimista. Eu acho que as coisas vão rolar, e rolam. Incrível é que rolam. Antes de eu entrar nos Doutores, teve um ou dois anos da minha vida, nos quais eu vivi só de salário de comercial. E isso é completamente absurdo, porque você não sabe quando você vai pegar publicidade. Você faz teste, mas não sabe se você vai pegar. E eu fiquei dois anos vivendo de publicidade. Pegava dois num mês, depois no outro não pegava. No seguinte pegava três. As coisas sempre rolaram. Eu fui otimista porque também eu fui um cara de sorte. As coisas sempre deram certo. Foram rolando. Eu lembro que quando eu estava na Europa, eu li uma coisa, na orelha de um livro da Simone de Beauvoir, que falava assim: "Você tem que aprender a aguardar a simplicidade dos fatos. Isso pra mim...

Quando eu li isso, foi um... Ficou ecoando na minha cabeça muito tempo. Porque a primeira memória que me veio quando eu li isso foi a época de prova. Você fica em casa, você fica uma semana antes da prova se descabelando e chega a prova e são 50 minutos. As vezes você acaba a prova e fala: " Nossa, foi tão fácil. Eu passei uma semana sofrendo." Foi a primeira memória que me veio. Foi essa de prova. Só que depois você começa a ver que você tem tantas coisas que você faz isso com sua vida, que..." "Aguarde a simplicidade dos fatos cara." A gente cria tanta ansiedade e expectativa em volta deles, e de repente as vezes eles chegam e são tão mais simples. Então, um pouco disso eu uso também nessa coisa do... de projetar futuro. Não dá pra projetar futuro. É impossível projetar futuro. Eu posso morrer amanhã.

Agora, isso as vezes usado como discurso, mas pra mim eu sinto que é muito verdade. Eu não sei. Eu sou um cara otimista. Eu acho que as coisas vão rolar, que vão dar certo. Como? Não sei, mas vão rolar. Eu acho que vai dar certo, que eu vou conseguir fazer os meus espetáculos, que eu vou... Eu fiquei seis anos morando com a Élida sem ter salário. Agora que eu tenho salário. A gente nunca passou fome. Tudo bem que teve um ano que eu tive que pedir uma grana emprestada, mas eu pedi pra um amigo. Eu tenho amigo cara. Mas meu pai fica: "Ah, mas você tem que fazer o prevê porque isso, isso..." Eu não tenho muito essa cultura de... Talvez porque eu tenho uma segurança, tenho já o meu apartamento, diferente de meu pai que foi um cara que começou sendo office boy. Eu entendo ele também. Eu tenho uma estrutura que ele não teve. Eu posso fazer isso porque meu pai me deu meu apartamento. Se ele não tivesse me dado, eu não poderia.

Não é que eu sou bem legal e meu pai é um bobão. Não é isso. É que a minha vida me permite ser assim. Tenho o meu apartamento. Ganhei do meu pai. Não tive que trabalhar pra comprar ele. Foi uma necessidade meio básica, você ter sua casa. Hoje tenho. Isso permite que as minhas buscas sejam meio outras. Saí um pouco do campo do material. Meu sonho não é ter o carro do ano. É legal ter carro. Eu gosto de ter carro. Mas não é o meu sonho. Meu sonho é aperfeiçoar meu trabalho de palhaço, me curar e ser cada dia uma cara melhor. Mais equilibrado, me conhecer... Claro que eu preciso de grana pra sobreviver. Mas, não está na pauta do dia pra mim. Não é o meu... P - É conseqüência. R - Não é o ganhar, que eu preciso. Se eu precisasse disso... Pô, eu me formei em Economia na USP, fiz minha monografia com o José Roberto Mendonça de Barros, que foi um cara que trabalhou no governo e tinha uma empresa de consultoria.

Pô eu estava com o meu futuro lá. Hoje, com 33 anos, eu seria rico. Mas seria um puta cara frustrado. Eu faço trabalho pra empresa até hoje e cada vez que eu entro nessa empresa, eu falo: "Meu, ainda bem que eu saí disso." Por causa desse meu jeito de pensar: "Pra que?" Sabe, os caras estão lá, na Unilever, que eles me chamam pra fazer uns trabalhos de acessória de Comunicação, e eu falo: " Eu jamais conseguiria passar minha vida aqui. Pra que é isso? Pro lucro da Unilever? Mudar minha vida pra dar mais lucro pra empresa?" Eu não consigo. Eu acho isso muito... Agora, eu percebo que as pessoas que estão lá estão felizes, estão realizadas, curtem, porque tem todo um cotidiano, e uma roda que vai girando e que vai te... E que lá você tem um motivo. Os motivos vão pintando, mas como eu tenho essa mania de "Ta Mas no fundo está o que?

No fundo está o lucro da empresa." Não quero cara. Mudar minha vida pra aumentar o lucro da empresa? Não consigo. Então, é uma coisa que pra mim não... Eu tenho consciência que eu preciso de dinheiro e tudo o mais, mas, não é a pauta do dia. E também juntado a esse otimismo e juntado à estrutura que eu tiro por meu pai ter sido um cara que ganhou dinheiro suficiente pra poder me dar o carro, pra poder me dar o apartamento. Eu tenho todos esses privilégios que meio por cento da população tem. Mas também, o meio por cento que tem, as vezes vai buscar outro caminho. Vai querer ser mais rico ainda. O meu não é de ser mais rico - na verdade eu não sou rico - de ter mais grana. "Pô, estou com as minhas necessidades básicas garantidas. Está ótimo. "Eu quero outras coisas. Eu quero ser um cara mais... Eu quero me aperfeiçoar cada vez mais.

Quero me desenvolver como pessoa (risos) P - Nando, o que te trouxe aqui, pra você registrar esse depoimento, o que você esperava desse depoimento? R - Quando eu recebi o e-mail da Morgana, a primeira coisa que me veio na cabeça quando eu li "Memórias do Paciente" foi a minha experiência na Itália. Naquele hospital. De cara isso. E eu já tinha consciência disso, de que pra mim o processo de cura depende do cara estar gerenciando seu próprio processo. Então, meu primeiro ímpeto foi esse: "Eu quero dar esse depoimento pra contar o absurdo que é o sistema, como se opera o sistema de saúde, no Brasil. Não é o problema daqui. É uma questão de consciência. Isso foi o primeiro. Mas depois teve aquela coisa que é gostoso falar da gente. A gente é meio egocêntrico. (risos) Falei: " Pô, os caras vão estar ligando a câmera, perguntando as coisas. Eu adoro falar da minha infância. Isso que vai ser gostoso. P - Você acha que você deu o seu recado? R - Eu acho que eu dei. Então. O primeiro ímpeto foi esse: "Eu quero falar daquilo lá, porque é falido, é errado, eu estou vivendo uma outra experiência, e eu gostaria de contar pras outras pessoas a outra experiência que eu estou vivendo, que eu acho que é muito mais saudável, muito mais produtiva do que a que o sistema de saúde oferece.

Quero dar essa contribuição. Quero ajudar a mudar; Dar o depoimento: "Oh bicho, não é por aí. De outro jeito as coisas funcionam muito melhores. Isso aí está falido. Não significa que vamos jogar fora, como eu fiz. Joguei fora e caí no palco. Não. Não vamos jogar fora não. Vamos pegar o que tem de bom." Esse foi o meu primeiro ímpeto e eu acho que me sinto satisfeito. E o segundo foi esse: eu gosto de falar. Muito tempo fazendo terapia. Começa a gostar de ficar falando. Eu curto. Eram essas duas coisas. P - Só uma coisa. Só por curiosidade, fica a vontade de querer responder ou não. Essas cicatrizes que você tem na perna é decorrente da doença? R - Não. Essa pergunta eu vou falar (risos) Essa aqui, na verdade, foi jogando futebol de salão. Foi em 88. Ainda não tinha Esclerose. Agora essa outra daqui – essa foi ligamento e essa aqui foi menisco – foi em 92, foi jogando futebol também, que eu ainda estava jogando. Estava jogando mal, mas estava. Mas eu acho que já foi uma coisa...

P - Uma conseqüência? R - É, porque foi uma torção mais besta do que essa daqui. Foi uma torcida jogando bola, que eu já acho que tem a ver com a debilidade das pernas. Essa aqui, eu ainda não tinha Esclerose, mas eu já acho que tem a ver com toda a história, no geral. Mas não tinha os sintomas da Esclerose. Acho que ela é a expressão do mesmo desequilíbrio que causou a Esclerose. Porque os dois joelhos meus eu machuquei. P - Então é isso. Se você quiser... A outra curiosidade é sobre sua companheira, sua esposa. Como é que ela te ajuda nesse processo todo? R - Ela me ajuda muito porque ela me fez crescer no sentido de que ela não me paparica. E no começo eu ficava: "Oh bicho, será que ela não vai me paparicar?" (risos) Ela não vai ter pena de mim? Não vai me paparicar?"

E ela não paparica. Isso é muito bom. No primeiro momento isso me causou uma frustração, umas discussões, tipo: "Ah. Estou melhor sim." "Ah Nando..." De cobrar, de perguntar, que era uma coisa um pouco da minha casa, dos meus pais. Sempre foram muito super protetores. Aí, com o tempo foi ficando legal porque eu fui sacando. "É muito legal isso, porque esse é o jeito mais saudável realmente de encarar." Claro, me dá suporte, tipo quando eu vou no hospital tomar Solumedrol. Pergunta: "Nando, você quer que eu vá com você?" "Não." Então não vai. Não fica "Não. Não. Eu vou." Porque meus pais:" Não, a gente vai." Aquela coisa. Ela não. "Você quer que eu vá?" "Não. Vou levar um livro." "Então não vou." No primeiro dia que ela falou: "Então não vou." "Como não vai? Me deixar ir sozinho pro hospital? Que desumana." Porque com meus pais, se eu falar assim dizem: "Não. Nós vamos. Vamos de qualquer jeito." Aí eu falei: "To indo Élida." "Ta. Tchau." " Pô. Me deixou ir sozinho, cara. Que desumana. Que absurdo."

Aí com o tempo: "Que que tem, cara." Foi legal nesse sentido. De dar um suporte, mas de falar: "Hei você está querendo carinho? Não é com a Esclerose que você vai conseguir, cara. Tenta outra, que por aí não vai rolar." (risos) Isso eu achei legal. É um aprendizado. E é gozado, só pra finalizar, que quando eu estava com a Esclerose, logo que apareceu a Berta, que é a senhora que trabalhava lá em casa, e que é quase como se fosse minha avó, ela falou: "Ai fio. Você vai falar pra ela que você tem Esclerose?" " Claro que vou." " Ah não. Porque eu tenho um conhecido, que quando a mulher soube que ele tinha uma doença grave, ela separou." Ficou toda assim... preocupada. E nunca teve isso. De jeito nenhum. Nunca teve nada que por ter Esclerose... Foi uma coisa sempre muito... P - Era mais uma característica sua. R - Numa boa. E até me ajuda no sentido de falar: "Meu, não dá pra você fazer?" Isso que eu falei de: "Ah. Eu não posso fazer assim, então eu vou ser um bêbado?" Ela sempre fala isso: "Oh Nando. Você não consegue? Você não tem muito equilíbrio? E daí. Faz o trabalho no qual você use esse seu desequilíbrio pro teu trabalho." Ela sempre dá um incentivo nesse sentido de: "Usa a seu favor. Não fica brigando contra. Aceita e usa a seu favor." P - Você teria mais alguma coisa pra registrar aí? R - Não. Acho que era isso. P - Tudo está bom? R - (risos) Realmente.

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